- Salta!
Deixa-os para trás se queres sobreviver a ti mesmo. Queres a liberdade? Este é
o momento. Foca-te no que está lá em baixo, na corrente que te espera, não lhe
resistas e deixa-te levar. No final das contas, com ou sem amor, causas ou
amizades, só tens o teu sangue. Não o derrames por mais ninguém. Nem por ti
mesmo. Salta e mostra quem és no meio da corrente. O que tu tens agora são
vertigens do futuro. Abraça-o de uma vez.
Dito isto, para si mesmo, saltou. As cordas em redor dos tornozelos iam rompendo uma por uma. Tinha as pernas marcadas do tempo que passaram apertadas. Ardiam. Não estava a saltar para casa porque essa ainda não existia. Não ia muito menos ao encontro de um amor porque o amor quando não é partilhado deixa de valer a pena. Havia um rio lá em baixo. Não sabia ao certo para onde a corrente o levaria ou se o impacto o deixaria novamente inconsciente. Era porém a última chance de se libertar e estava a abrir o peito a todos os riscos e incertezas inerentes aos últimos passos em direcção ao início. “Adeus, adeus… E olá!”: Pensava consigo mesmo numa queda que parecia interminável, de braços abertos rodopiando no ar com o vento tão cerrado que quase era impossível manter os olhos abertos. Alguns rostos eram penosos de imaginar, porque nem todos os olhos são fáceis de deixar para trás. Outros assemelhavam-se cada vez mais desfocados, e talvez pelo vazio que representavam, dizer-lhes adeus era mais fácil que atirar um maço de tabaco vazio ao lixo. Pela primeira vez em anos não estava com os punhos cerrados e a tensão que levava nos ombros fazia-se doer agora. Os braços iam bem abertos, fosse o que fosse que estivesse prestes a abraçar. Depois dos sinuosos caminhos que atravessou, ou por onde rastejou, aquela viagem terminaria numa queda livre. Sabia agora, de forma tão clara e límpida como o rio lá em baixo, que não se tratava de uma segunda oportunidade. Todos aqueles anos foram o prólogo daquele momento. O momento onde tudo se iria escrever, onde explodiria numa bola de energia tão brilhante que quem estivesse ao redor ficaria cego. Talvez por isso mesmo tivesse de começar sozinho, de cair desamparado, de saltar por conta própria para a verdadeira vida! Agora, depois de anos em eclipse, afastava-se na certeza de que não era pelas trevas que se mantinha longe. Era pelo brilho! Já ninguém o podia impedir. Tudo o que podiam fazer era deixá-lo ir e ofuscarem-se. Caiu, chegou, Mergulhou!
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