quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Escombros



O regresso durou o tempo de um sonho. As areias molhadas na sola das botas, daquela rua de terra batida, eram como as ruas de ouro na Babilónia. Foi um abraço sentir, ao final do dia, o portão de metal abrir-se deixando-me as mãos molhadas. A lareira crepitava com pedaços de caixotes do mercado e jornais dos dias anteriores. O velho homem não estava assim tão velho, fumando na cozinha. Ela, o verdadeiro pilar daquele abrigo, a casa dentro da casa, esperava pacientemente por mim. A textura do seu rosto macio nos meus lábios era a confirmação de que estava, verdadeiramente, seguro. Que bom era sentir aquelas mãos calejadas, uma vez mais, tocarem-me a face. Fazia-o todos os dias, disfarçando com advertências, alertando-me para que cortasse a barba. Eu sabia que era só pelo mimo. O carinho disfarçado de reprimenda. As estrelas viam-se bem no terraço, enquanto fumava um cigarro às escondidas. Havia pouca iluminação mas vi ao fundo da rua os dois amigos do costume. Os do bilhar no café da Da. Ana. Dei um abraço aos dois e percebi-lhes a surpresa na expressão, como se não fosse suposto estar ali. De facto não era. Eu estava dez anos fora de época mas não queria acordar. A pior falta de ar é a de sufocar em lágrimas. 

Estava ciente de que quando acordasse já lá não estariam os companheiros de aventuras, a casa ruiria, o velho homem estaria cada vez mais distante de si mesmo e pior que tudo isso:

O pilar, a Avó, a muleta para o deficiente que sempre vou ser, tinha desaparecido.

Só que abrir os olhos é inevitável, não é? E de um pontapé voltei dez anos ao futuro. A ira cresceu pelo caminho e é ela que me afia o olhar. Ninguém, absolutamente ninguém, muito menos o tempo, tem o direito de roubar o abraço de quem nos ama! Um dia acertamos as nossas contas. Por agora, caminho pelos escombros, como outrora fazia em direcção a casa. 

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