O regresso
durou o tempo de um sonho. As areias molhadas na sola das botas, daquela rua de
terra batida, eram como as ruas de ouro na Babilónia. Foi um abraço sentir, ao
final do dia, o portão de metal abrir-se deixando-me as mãos molhadas. A
lareira crepitava com pedaços de caixotes do mercado e jornais dos dias
anteriores. O velho homem não estava assim tão velho, fumando na cozinha. Ela,
o verdadeiro pilar daquele abrigo, a casa dentro da casa, esperava
pacientemente por mim. A textura do seu rosto macio nos meus lábios era a confirmação
de que estava, verdadeiramente, seguro. Que bom era sentir aquelas mãos
calejadas, uma vez mais, tocarem-me a face. Fazia-o todos os dias, disfarçando
com advertências, alertando-me para que cortasse a barba. Eu sabia que era só pelo
mimo. O carinho disfarçado de reprimenda. As estrelas viam-se bem no terraço, enquanto
fumava um cigarro às escondidas. Havia pouca iluminação mas vi ao fundo da rua os
dois amigos do costume. Os do bilhar no café da Da. Ana. Dei um abraço aos dois
e percebi-lhes a surpresa na expressão, como se não fosse suposto estar ali. De
facto não era. Eu estava dez anos fora de época mas não queria acordar. A pior
falta de ar é a de sufocar em lágrimas.
Estava ciente de que quando acordasse
já lá não estariam os companheiros de aventuras, a casa ruiria, o velho homem
estaria cada vez mais distante de si mesmo e pior que tudo isso:
O
pilar, a Avó, a muleta para o deficiente que sempre vou ser, tinha
desaparecido.
Só
que abrir os olhos é inevitável, não é? E de um pontapé voltei dez anos ao
futuro. A ira cresceu pelo caminho e é ela que me afia o olhar. Ninguém,
absolutamente ninguém, muito menos o tempo, tem o direito de roubar o abraço de
quem nos ama! Um dia acertamos as nossas contas. Por agora, caminho pelos
escombros, como outrora fazia em direcção a casa.
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