terça-feira, 24 de julho de 2012

Vá-se lá saber.


O dia raiou e conseguiu finalmente escapar-se para casa. O quarto estava cheio de sombras. Espectros de rapazotes que viviam em bolhas e mulheres ressabiadas. Eles torciam-se pela provocação que lhes fazia por existir e conseguir sem querer aquilo por que matariam. Elas, retorciam-se, porque queriam mais do que lhes podia dar. Disse-lhe um sábio uma vez que não há sexo grátis. E não há mesmo! Mesmo sem sexo, nunca é grátis. Os sorrisos e a amizade vertem por todas as fissuras de relações desta índole. As pessoas tornam-se desesperadas, mesquinhas até, quando não conseguem o que almejam. Aí conseguiu finalmente distinguir a amizade por quem ele era, e a “amizade” pelo que podia dar. O que ele não estava disposto a fazer eram promessas. E como todos sabemos não há santas que façam milagres sem promessas. Há que ajoelhar, prometer exclusividade e nunca sequer ponderar sair e ser apenas um simpatizante. Um amigo. Que é isso da amizade? Essa agora! Não bastava que o apoio fosse incondicional e permanente em qualquer hora. Nem a confiança cega. Não! Era preciso andar de braço dado, mostrar perante todos uma relação que não existe e mandar sorrisos nas redes sociais. Pensava ele, enquanto cruzava os braços atrás do pescoço, fitando o tecto do quarto, o quanto desprezíveis se transformavam aos seus olhos essas pessoas. O nojo era inevitável. Tão inevitável quanto a indiferença com que os tratava. Sentia-se sugado. Tudo girava em torno do amor, mas não tinha amor para dar. Como poderia prometer algo que não tem? Amara uma vez, partira uma vez, repetira muitas vezes. Só que nunca fez promessas. Antes pelo contrário. Era peremptório na certeza de estar incerto. De não estar preparado. Não era um galã nem um conquistador. Não entendia o que podiam aquelas criaturas, por mais cobras que agora fossem, ver nele. Fosse o que fosse não sabia. Enquanto assim sucedesse não haviam entregas por completo. Sabia porém isto: Nenhuma, absolutamente nenhuma daquelas mulheres com quem conversava, bebia ou beijava era suficiente para aplacar a sede de verdade que é a busca pela certeza de ser capaz de amar novamente. Para que o queriam elas se sabiam que não lhes daria o todo? Para que as queria ele se eram incapazes de lhe merecer mais do que um meio? Queriam o namorado, o marido… Mas nem a amizade lhe mereciam. Não depois de as ver em conluio umas com as outras, destilando pragas e piadas, frustradas com tudo o que não receberam. Seria bom agora dormir. Não era comum recordar-se dos sonhos mas ficava sereno com o simples facto de pensar nela antes de ceder a Morfeu. Sim, havia outra mulher. Não há sempre? Beijara-a com o olhar certa vez. Os lábios da íris nunca mais ficaram satisfeitos com outra. O verdadeiro beijo começa nos olhos. Os lábios são um mero instrumento concretizador. A antecipação, o envolvimento, a magia e a esperança começam no olhar. A não ser que sejamos ceguinhos. Aí apalpamos. Quer dizer, a rapariga também pode ser estrábica e isso é chato porque os olhares não se cruzam. Os dela cruzam claro, mas um com o outro. Se ela for mais alta também não dá, porque as dores do pescoço perturbam a intensidade do momento. Se for mais baixa está bem logo que não use decote. É que distrai. Não foi o caso. A visão que teve naquela noite foi incomparável a todas as outras nos últimos dez anos. O sorriso era generoso mas os olhos não. Olhos tristes tornam-se opacos. Não permitem ver muito além. Porém foi suficiente para o privar do instinto de fugir, porque estava calor ou porque tinha algo a fazer. As desculpas do costume. Estava a ser desafiado sem instintos de sobreposição cáustica. Não se importava porque em boa verdade estava mais preocupado em perder aqueles minutos, do que perder o orgulho. O seu tão estimado orgulho. Era com ele que entrava e saía de peito feito, sem adversários, onde quer que fosse. Queria lá saber de guerras ou de cobras, de “bolheiros” ou de anedotas dançantes. Tudo o que importava era ler os olhos daquela mulher enquanto a boca contava histórias que sendo dela, não eram ela. Havia muito mais a descobrir e muito pouco com que perceber. Então foi desaparecendo de cinco em cinco minutos, na tentativa de dialogar consigo mesmo.
- Que é que estás a fazer?
- Sei lá. Sou obrigado a fugir sempre?
- Obrigado não és. Mas para bem de ambos pede mais um copo e vai perder os sentidos noutro lado.
- Para teu bem, queres tu dizer. Eu é que estou constantemente a ser preso por ti. És sempre tu a tomar a iniciativa, seja da investida, seja da fuga. Quem lida depois com a angústia não és tu.
- As causas são comigo. As consequências contigo. Sempre foi assim, o acordo foi esse.
- Acordo? Como se eu tivesse escolha possível.
- Está bem, se queres pôr as coisas nesses termos, não tens escolha.
- Vou ter hoje!
Não pediu outro copo e voltou para onde a tinha deixado. Já não estava. Mais uma vez desperdiçou tempo precioso. Nem por isso perdeu o ânimo. Seguiu rumo a casa enquanto o sol começava a despontar. Tinha o gosto pelo risco restabelecido. Um fio de esperança na algibeira e uma verdade imensa no peito. Por agora adormeceu. Dentro de horas começaria a trabalhar. 

sábado, 7 de julho de 2012

Geração


Promoções de boicote. As pessoas parecem cães famintos. Hoje desisto de ti, geração. Não das minhas crenças. Apenas de ti. Certo dia, no mês de Maio, num ano que já não o é, jurei defender-te. Jurei proteger-te. Certo dia, não muito tempo atrás, afirmei que dava a vida por ti. Não menti. É que de certa forma estás a matar-me. Perco a paciência nas escadas rolantes do metro. A velha, o raio da velha, não me sai da frente. Está indiferente a quem tem pressa de entrar no transporte para o trabalho que lhes magoa as pernas, que deixa os pés em ferida e suga toda a energia, todo o tempo de qualidade. Morre o ânimo para receberem uns trocados, atirados por um qualquer gerente, tão ou mais burgesso que os governantes/empresários a quem lambe os colhões para que ele próprio continue a auferir um bom ordenado. O salário da exploração. Porque há dois. Somente dois tipos. O rendimento da exploração e o rendimento do explorado. E tu geração, estás longe de receber o primeiro. Põe-te no teu lugar. Enquanto isso ele bate no peito, o gerente, insultando quem se levanta três horas antes que o chefe, para fazer o que ele não faz e comer as migalhas que deixar cair da mesa. Mas não fiquem tristes. Afinal de contas, têm promoções. Podem não auferir mais por isso, mas acumulam funções, precariedade e menos um ou dois insultos do homem da gravata. Acabo por ultrapassar a velha para seguir o meu caminho. Não leves a mal velhota. Não é pessoal. É só o mundo que construíste para mim e que insistes em criticar, como se não fosses tu quem cuspiu, cagou e mijou este pântano de humilhação e mediocridade em que todos chafurdamos. E fico assim, orgulhoso na minha ira de rebelde profissional. Eis que numa tarde tranquila, ligo o rádio e escuto a notícia da morte de um gajo qualquer, que diziam ser talentoso e por isso… famoso. Sim porque para o ser é preciso ter talento. Observem por exemplo os programas da manhã. É aí que me lembro novamente de ti, geração. Que não és famosa porque não tens os talentos da mediocridade, que não serves para entretenimento. Mas tens outros. O de lamber as próprias feridas e estar aqui todas as manhãs, para mais um dia de dor. E ainda ajudas a mitigar as maleitas do vizinho, pondo de lado as tuas. Vejo gente de brincadeira, que se acha gente a sério. Gente “cosmopolita” gritando “descanse em paz” e lamentando a morte de um tipo qualquer, um único rapazola quem nem conhecem. Mas fica bem dizer-lhe o nome de semblante carregado. Qualquer erudito precisa lamentar a morte do homem. Caso contrário não o é. Convém também agir como se lhe conhecessem o cheiro, como se todos lhe dormissem no leito. Fica bem dizer assim, agir assim, porque são cosmopolitas. Só que tu, geração, morres todos os dias. Por fora e por dentro. Tens meses em que não comes para tomar os medicamentos e outros em que os comprimidos não chegam porque tens de matar a fome. Como posso então desistir de ti? Se o faço só me sobram os cosmopolitas e com esses o único contacto que anseio ter é o do autoclismo. Não posso, geração minha. Sou tão teu como a dor que levas calada. Não te viro as costas geração que tudo mata, menos a própria fome.