segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Sem forma

Carácter, honra e cicatrizes. Lesões emocionais. Dor suportada independentemente das agressões sofridas. O poder de se manter em pé com as pernas partidas. A impossibilidade conquistada de agarrar o mal pelos cornos, mesmo com as mãos queimadas. 

Vem, aproxima-te do meu descontentamento. Sangro os lábios de tanto os morder. As palavras são demasiado fortes para conter sem pagar com o meu sangue. Agride-me o marasmo. Acorda-me a consciência com bofetadas de liberdade. Mostra-me o mundo dando forma ao meu ímpeto de lutar. Aplaca os meus anseios. Dá-lhes um nome. Dá-lhes uma causa. Dá-lhes justiça. Eu, dou-te a minha lealdade. O meu suor. Dou-te o sorriso da gratidão e a força do meu braço. Leva-me para a guerra. Ensina-me a violentar a violência e a abater a tiro as balas. Ensina-me a criar para esquecer como destruir. 

Deixem-me! Deixem-me fluir em prosa, em uivos, em acções, em silêncio… Deixem-me erguer! Correr contra o vento. Fugir do visco, da morte e do barro que tenho incrustado nas botas. As botas não servem para esmagar. Servem para percorrer o caminho. Ensina-me a aprender. Deixa-me morrer... vivendo. 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Lobos

Sentia-se em casa onde quer que houvesse cheiro a terra molhada e crepitar de carvalho numa qualquer fogueira. Naquele lugar, não havia nem uma coisa nem outra. Locais onde viver poderia conhecer muitos, mas raízes não existiam em nenhum deles. Nunca soubera ao certo onde pertencer, se é que poderia pertencer onde quer que fosse. Amnésia emocional. O sentimento de querer regressar a casa estava latente, ainda assim, só fazia com que a dúvida aumentasse. Sentir falta de algo que nunca se teve, que nunca sequer presenciou, de que não há memória…
É dilacerante para o dia-a-dia de qualquer homem ou mulher que, na época presente, se atrevam a pensar em mais do que no evento organizado para dali a oito dias, na roupa da montra daquela loja que vende peles de animais a preços que alimentariam uma criança por dois meses, no vestido novo que ficou com uma nódoa de mousse de manga ou no carro que vai comprar para impressionar mulheres tão vazias quanto a postura com que se apresentam. Felizes os ignorantes, os que não pensam em nada estrutural, dentro ou fora da si mesmos.  

Nos locais em que lhe vagueavam os pensamentos, onde lhe levavam os sonhos, não havia nada disto. Era um outro mundo. Um número de quatro dígitos onde jamais poderia pertencer por uma altercação entre o tempo e o dia em que chegara. Ali era possível lutar por tudo em que se acreditasse, sem receio de qualquer má interpretação. Era honrado bater-se e debater-se por aquilo em que a fé pousasse. Seria visto como bravura, em vez de agressividade. Naquele lugar nenhum olhar lhe mostraria choque ou desaprovação, por não virar a face a que perigo fosse. Tinha dezanove cicatrizes em todo o corpo. Nenhuma fora desferida a fugir. Muitas mais ganharia de bom grado, matando monstros e derrubando opositores, na terra que lhe povoava o peito.  É que lá, ao que consta, o coração era mais importante que a erudição. E era este a maior arma de qualquer guerreiro, independentemente das ferramentas materiais, lâminas ou escudos que carregasse no dorso. As manhãs seriam de nevoeiro, pela incerteza do que lhe traria o dia que principiara. Por não saber que bestas surgiriam pelas beiras do caminho, que inimigos o espreitavam, que olhares o deixariam sem chão e que causas pediriam o seu braço. Caminharia de peito aberto frente ao desconhecido, sem medo, orgulhoso dos seus vivos e dos seus mortos. Assumiria sentimentos com a mesma bravura com que poderia irromper batalha dentro. Morreria de bom grado por aquilo que acreditasse ser justo e viveria com maior ânimo ainda superando as adversidades. Vencendo e sendo derrotado. É que lá, naquele sítio de que vos falo, mesmo o que não podia ser vencido, merecia ser combatido. Um dia, caso sobrevivesse a toda aquela incerteza e o corpo já não pudesse responder aos impulsos do peito, guardaria as armas em local seguro e procuraria um local de repouso, num sítio bem alto, onde pudesse antever as mudanças de clima e respirar a neblina matinal. Quem sabe não encontraria uma mulher misteriosa, daquelas de quem nada sabemos, mas cujo olhar faz misteriosamente mais sentido que qualquer outra que se pavoneie em redor, e pudesse fazer dela a derradeira e última causa do seu tempo de vida. Seria sempre a última que veria ao deitar e a primeira ao acordar. Aquela que, se não pudesse impedir de cair, acompanharia sem pensar demasiado. Cairiam juntos! O olhar manteria vigilante, mas os ímpetos por batalhas seriam apaziguados pelo peito que sentiria bater junto do seu nas noites em que o vento se mostrasse furioso. Viveria uma vida de batalhas e de honra, de consciência limpa e livre. Uma vida preenchida por algo diferente, que não encontrava no local onde presentemente estava preso: 

Algo… Puro!

Poderia enfim repousar e ouvir o canto dos lobos.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Estranhos

Ficou preso no momento em que a viu dançar. A expressão era frágil e a postura firme. Os homens que a convidavam, coitados, teriam de se submeter a três minutos de música em que seriam completamente ofuscados pela parceira. Podiam pelo menos, nas suas paradas, pacatas e pategas vidas, ter um vislumbre do que seria segurá-la nos braços. Experienciar o rubor da sua face junto das suas. Podiam sentir-lhe o ar entre o pescoço e o maxilar. Ele, o estranho, sentado algures no local mais escuro que podia ter encontrado, fumava um cigarro enquanto se desconcertava por dentro, na tentativa de a observar sem que ela o notasse. Mas nada lhe escapava. Sabia que se focava nela e seguia dançando com um dos seus pares padrão. Os olhos da estranha não eram grandes. Nem precisavam. No momento em que os pousasse em alguém, ainda que na outra ponta do salão, podiam ser sentidos. Tudo o que o estranho sabia é que naquela noite não houve um único pesadelo que o invadisse. Pensou em tudo o que viu e sonhou a preto e branco. Respirava agora um novo ar e isso confundia-lhe os sentidos. Era o soldado desconhecido feito escrevinhador. O homem que preferia derramar o seu sangue por uma causa, a discuti-la. A criatura que acreditava em tudo menos em si. E estava agora irremediavelmente atraído por aquela estranha, que fitou numa noite de Inverno. Outrora, sem qualquer hesitação ou turbulência nas pálpebras, tudo o que tinha a fazer era segurar a mochila presa ao ombro direito, acender um cigarro e partir. Mas este, ah este era todo um novo cenário!  Não podia partir porque a magoaria mais do que a qualquer outra que o tivesse amado. E nem era uma delas. Por esta mulher nem sequer era conhecido, quanto mais correspondido no que quer que estivesse a sentir. No entanto a ideia de a deixar, sentindo-se só e sem valor, corroía-lhe o peito. Que raio de animal podia fazê-lo? Talvez o animal que ele era. Pelo menos aquele que era antes de a estranha irromper muralhas dentro e despertar a pouca humanidade que lhe restava. Aquela mulher, por mais magoada que tivesse sido no passado, não recuava. Era especial demais para que deixasse de a ver. Para permitir que se sentisse novamente um enorme nada, quando nela via tudo. Eram infinitas as possibilidades para o que  podia observar naqueles olhos pequenos. Grande a vontade de partir. Mas mais do que uma questão de honra, permanecer era uma questão de coração. Não permitiria que mais ninguém a diminuísse. Lembrá-la-ia do quanto é, do quanto vale e do quanto foi sonhada. Decidira então, pela primeira vez em anos, dar-lhe o que restava do homem que poderia ter sido. Beijá-la-ia com o olhar. Abraçá-la-ia em pensamento. Segurar-lhe-ia a mão em sonhos. Isso era o suficiente.    

A Estação


A manhã era de nevoeiro na estação dos comboios em Vila Nova de Gaia. Poucos minutos faltavam para as sete horas da manhã. Em breve, as poucas pessoas que ali se encontravam, teriam a companhia de mais umas dezenas, no reboliço habitual daqueles que na nação valente e imortal conseguem ainda manter um emprego. Nada de novo até aqui. A rotina secular de um Povo firme na sua força laboral e que ora resignado, ora resistente na exploração a que a sua produtividade era sujeita, foi permitindo a sobrevivência do País.
Era num dos vários bancos de madeira frente a uma das linhas, sentido Porto-Lisboa, que se encontrava um casal relativamente jovem, tendo atento entre os dois, um jovem rapaz, na casa dos oito anos de idade. O homem, de compleição magra e cabelo curto, moreno, com rugas de expressão bem vincadas, barba de vários dias e calças de ganga sujas, conversava com o pequeno algo inaudível para ouvidos alheios, mas pleno de afectos para quem se dignasse a observar. A mulher, forte no arcaboiço físico, de óculos de graduação forte e blusa colorida, fingia não observar ninguém em redor, talvez para não entristecer o filho mais novo.
Porque haveria de ficar triste o rapaz? Na verdade havia povo a observar Povo. E certamente aquele casal sabia-o. Independentemente da sua formação, linha de raciocínio ou ideológica (caso a tivessem), apercebiam-se dos olhares em redor.
Sentadas no mesmo banco, estavam mãe e filha, olhando de soslaio o patriarca daquela pequena família. Logo de seguida, olhavam uma para a outra, manifestando um desdém mútuo pelo homem de aspecto pouco asseado. Poucos minutos depois levantava-se o pequeno, aproximando-se da zona onde se encontravam, mais para a frente, comboios de mercadoria estacionados. Maravilhado, fazia perguntas aos progenitores acerca dos veículos. Nunca tinha andado de comboio. Também não seria naquele dia. Não era por isso que ali estavam. O pai sorria, e a mãe respondia como podia ao pequeno Miguel. Do lado direito, junto a uma das vigas que suportavam a área coberta do local, encontrava-se uma mulher na casa dos cinquenta anos. Calças de flanela muito bem vincadas, blusa branca e casaco azul-marinho. Ao pescoço, um colar de penas e pérolas. O cabelo pintado, ondulado e curto, dava a ideia de ser uma daquelas senhoras que dormiam com toucas e perdiam pelo menos uma hora na sua manutenção antes de dormir. Observava, pouco importada com que reparassem, a mãe do menino curioso e do marido com as calças sujas. Como se de alguma forma, ou por algum motivo, tivesse legitimidade para entrar no campo de visão da mulher, e permitir-se entrar no dela, no intuito de a fazer sentir que ali não era o seu lugar, entre pessoas de bem, pessoas que tomaram banho naquele dia, que puderam tomar banho naquele dia, que tinham dinheiro para pagar a água, e a electricidade. Pessoas que tomaram um pequeno-almoço e não enganaram o estômago para poderem alimentar filhos pequenos. Pessoas que puderam escolher a roupa que iriam vestir. Pessoa que podiam lavar essa roupa, sem receio de não terem outra para trabalhar no dia seguinte. Ou para procurar emprego. Ou para irem a instituições governamentais de pseudo-solidariedade ou de segurança social, implorarem ao menos por apoio alimentar. Não preocupadas com o estômago que teimava em barafustar dentro delas, mas para que o dos filhos fosse enganado por mais algum tempo.
A mãe do pequeno reparou na “mulher de bem” que a observava como que a recrimina-la pelos chinelos que envolviam os pés sujos de terra, pó, ou o que quer que aquilo fosse. Poderia ter retribuído o olhar e, dessa forma, repreendido o acto desnecessário. Não o fez. Era uma mulher forte, ou pelo menos parecia pela forma firme com que dialogava com marido e filho. Ainda assim, um olhar triste, de quem está já acostumada a ser tratada assim, por palavras, gestos ou omissões, foi tudo o que soube exprimir na direcção do marido, que também se apercebera e baixava naquele instante a cabeça, segurando a mão da criança. Foi por ele, esse pequeno catraio fascinado pelos comboios em que nunca andara, que ambos se resignaram perante o cenário de ideias pré-concebidas e mesquinhez que os envolvia naquele local, como que a sombra de um sistema vigente por décadas, que mesmo após a sua abolição, deixou traços de cariz cruel e desumano naqueles que não o quiseram aceitar.
A aglomeração de trabalhadores começou a intensificar-se assim que começaram os anúncios de transporte a caminho, na linha de sentido oposto ao nosso, para cidade do Porto. Foi nessa altura que algo mais me despertou o interesse, e em boa hora, pois o nó no estômago provocado pela cena anterior deixara-me em estado de raiva latente. A vontade, confesso, era a de confrontar as víboras disfarçadas de gente que ali se encontravam a humilhar com o olhar um casal que a nenhum momento as importunou. Sim, é possível humilhar com os olhos. Seguramente, penso que apenas um ser desprovido de qualquer sensibilidade não se apercebe do quanto o simples gesto do esgar pode afectar as emoções de quem o rodeia. E quando o fazem deliberadamente, por puro despeito, conscientes disso mesmo,  deitam por terra todos os sacrifícios feitos ao longo de quase uma centena de anos, para que um dia fosse possível vermo-nos uns aos outros como iguais. Apesar de tudo, nenhum direito tinha eu de chamar víboras a essas víboras, ou tentar sequer repeli-las por palavras. Se eles, o casal, não o fizeram para preservar o bem-estar do rapaz que estava fascinado com a visita à estação, que direito tinha eu de o fazer?  Por vezes há que suportar estes fardos. Nem sempre é possível corrigir as injustiças, pois com o acto os danos seriam maiores para os inocentes. Felizmente, há sempre um momento em que os danos colaterais são sempre menores que as vantagens. A vitória pode ser adiada vezes sem conta mas não existe eternidade para o sono da justiça.
Foquei a minha atenção no jovem de cerca de dezoito ou dezanove anos que se encontrava na minha dianteira. Não tinha ainda reparado nele. Só quando a criança saltou do banco onde os pais o ladeavam, ao seu encontro, é que me foi possível perceber a sua presença. Ficou portanto explicado o motivo dos pais e do filho estarem tão cedo ali, naquele local, sujeitos ao frio do clima e ao frio da pequenez alheia. Acompanharam o filho mais velho, e ali permaneceram para dele se despedirem quando o comboio chegasse. Estava um pouco alheado de tudo o que se passava até que o irmão foi ao seu encontro, e lhe perguntou algo que não consegui perceber. Permaneceram os poucos minutos que faltavam até partir, juntos a conversar, sob o olhar ternurento dos progenitores. Em breve se despediriam. Coincidência ou não, ficamos instalados na mesma carruagem, e o primeiro contacto que tive com o rapaz, foi indicar-lhe onde ficava o bar. Acabei por ir também. A cafeína é o melhor amigo do “combatente”, como me disse um sargento de cavalaria a meio de uma noite de violência física e psicológica, algures numa serra em Viana do Castelo. Notava alguma insegurança no rapaz. Pelo que me dissera tínhamos o mesmo destino:  Lisboa.
Era no entanto a primeira vez em que se ausentava para tão longe, sozinho.  Fazia-me perguntas esperando indicações, mas nem eu sabia responder a todas, visto ser difícil conhecer aquela zona pela pouca frequência com que a visitava. A caminho da carruagem a conversa seguiu-se. A minha inquietação aumentou. Depois do que me contara, não  havia mais sequer a chance de conseguir ao menos tentar dormir o resto da viagem. Estava a caminho da capital, este rapaz que ainda nem vinte anos tinha, para tentar a sua sorte e participar de uma entrevista de emprego, na área das telecomunicações. Os pais vendiam diversos artigos em feiras da zona norte e faziam tudo o que podiam, ou lhes era permitido, para sustentar e manter vivos os sonhos tanto do filho mais novo, como deste mais velho, que me acompanhava nas próximas duas horas e meia. Tinha deixado os estudos precocemente, para encontrar um trabalho que o permitisse participar activamente na formação do irmão e aliviar um pouco o esforço dos progenitores. Confessara-me, entre dentes, a revolta que sentia por ter de ver quem o criou, dia-após-dia, sujeito ao tempo, à privação do descanso e até a pessoas como aquelas atrás exemplificadas, vivendo apenas para cuidar das suas crias. Cansara-se de ver sacrifícios muitas vezes não recompensados em seu redor, e humilhações, sem nada fazer. Aquele rapaz, com a vida pela frente, viu-se portanto obrigado a pôr de lado as suas aspirações mais íntimas, por já lhe ser impossível suportar a indignação de ver aqueles que amava constantemente desesperados, constantemente sacrificados… Constantemente na inconstância de saberem só ao final do dia, se teriam o suficiente para alimentar as duas bocas que trouxeram ao mundo. Ele não tinha motivos para sorrir. Só para cerrar os dentes e entrar na mesma batalha diária em que já combatem nas últimas décadas as pessoas deste País. Os acomodados, esses, os que têm o colo do Pai caso algum imprevisto surja, podem-se passear faustosamente pelas avenidas, abraçando causas e partidos com que nem sequer concordam, indiferentes ao conceito de sacrifício ou abnegação em prole do outro, e sorrir desalmadamente indiferentes ao que o vizinho do lado possa estar a viver. É muito fácil ter opiniões próprias (ou decalcadas), e nada fazer em seguida para as defender. Ou então, fazer com o interesse escondido de enaltecer o próprio ego no intuito de terem a possibilidade de se mostrarem diferentes relativamente a amigos ou familiares. Podem até dizer aos companheiros de luta que estão do lado deles, que concordam com o que é proposto, que fazem o que for preciso. Mas o que lhes importa de facto é o reconhecimento, o “social” e os joguinhos de infância que mesmo na casa dos vinte ou dos trinta nunca abandonaram. A intriga a pretexto da causa dos povos é asquerosa. Por vezes não é conveniente levantar areia e olhar com olhos de ver para criaturas dessa safra. É melhor o “deixa andar” e fingir que não vemos qual é o verdadeiro intuito da pessoa. Por mais que as evidências comecem a ser fortes e a dissimulação continue aceitável para manter a farsa. E eles continuam, em pleno dia da semana, defendendo fervorosamente os seus ideais libertários, na berma da piscina. Prosseguem mais tarde, defendendo a justiça para o povo, enquanto assinam a carta de despedimento da mulher da limpeza na empresa do paizinho. Continuam ainda, fim de tarde fora, a dar palmadas nas costas na mesa do café daqueles com quem dizem concordar, mas que abandonam ao mínimo sinal de eventual acção onde possa aparecer um senhor guarda.  Mea máxima culpa! Dias sim, dias não, vou compactuando com este silêncio de vidro nas vísceras, permitindo que mais homens como esses sejam formados e mais rapazes como aquele, sentado perto de mim, sejam deformados. Pouco tempo de viagem nos restava e já sentia nos ombros o peso da responsabilidade pela condição daquele ser-humano. Daquele cidadão. Daquela futura fonte de extorsão do estado. A omissão, o silêncio e principalmente a inacção são tão fatais quanto a indiferença. Somos tão carrascos uns dos outros por nada fazermos, quanto aqueles que nos desferem os golpes. Perdido nestes pensamentos e tentando perceber como purgar a minha culpa, deixei de ver o rapaz. O comboio havia chegado ao destino. Porém, foi aquele o momento em que percebi que a viagem mal tinha começado. Saí para a estação pelas nove e trinta da manhã. Procurei o companheiro de carruagem, mas já o tinha perdido de vista. Provavelmente nunca mais nos encontraríamos. Perguntei a um vigilante se haveria perto algum quiosque e o mesmo foi prontamente indicado. Precisava de um bloco de notas para escrever este mesmo rascunho. Chegando ao local, petrifiquei. O sobrolho direito foi franzido antes mesmo de conseguir manifestar qualquer surpresa. Num banco de madeira verde, perto de uma das entradas principais, estava o mesmo casal que deixara na estação de Vila Nova de Gaia. Entre ambos, a mesma criança fascinada pelos comboios onde nunca tinha viajado. Poucos metros diante deles, o mesmo rapaz distante e de olhar perdido na linha. Não me aproximei, porque ao meu lado também estavam. Dentro do edifício, lá estavam eles de novo. O choque apoderou-se de mim e a atrapalhação que me é característica tomou finalmente o seu trono. Choquei contra um homem e era o Pai do rapaz. Pedi desculpas, e quem me disse que não fazia mal foi a Mãe. Estavam na rua também e no autocarro onde me apressava a entrar. Em todas as paragens onde o motorista recebia novos passageiros. E estes passageiros eram também eles o casal. Para onde quer que me voltasse eles estavam sempre comigo. Juntos a eles estavam sempre os nacos de carne com pernas que os desaprovavam por não possuírem roupa da montra. Entre eles o mesmo olhar de resignação e tristeza. Em mim a aceitação de que doravante, onde quer que fosse, os traria sempre. A certeza de que teria que fazer algo mais do que falar para que não mais fosse possível comer da indignação e passar o resto da vida sem a conseguir digerir. Incerteza, por não perceber muito bem como o fazer. Ímpeto de o descobrir, aprendendo.

Nunca mais!

Deixa-me partir. Quero regressar ao lugar onde nunca estive, mas a que sempre pertenci. Aquela gruta. A gruta isolada na montanha deserta onde nunca nasci e que ainda assim é meu berço. Lá ficarei, isolado de todos, ou apenas isolado de mim. O meu cabelo e barba crescerão até o meu rosto ser coberto. Dessa forma nunca mais serei visto pelo mundo a que também tu pertences. Deixa-me. Irei juntar seixos, dar-lhes-ei nomes e é com eles que terei as minhas conversas. Se me magoarem tanto com o seu silêncio como tu com essas palavras, atirá-los-ei fora e irei coleccionar outros. Escreverei nas paredes o livro que jamais será lido, tendo como utensílio os ossos dos animais que ousarem invadir a minha caverna. Com os meus dentes serão dilacerados. Todos! Sem excepção. Ursos, alces, bodes, burros, cavalos ou até bois. Sucumbirão com a força dos meus maxilares e enquanto o seu sangue se mistura na minha saliva, escorrendo pela minha barba, soltarei um grunhido misto de gargalhada e gemido de dor. Tornar-me-ei louco. Correrei sujo de lama pelos bosques com os farrapos no lombo que outrora estavam limpos e compostos, mas que, qual retrato do meu olhar, estão agora encardidos, irreconhecíveis e rasgados. Farrapos. Não mais serei um homem com trejeitos de besta. Sou agora uma besta com semelhanças de homem. Evolução ou regressão, tanto me faz. A chuva e os ruídos da noite serão a única música que irei escutar nos meus passeios nocturnos. Grito enquanto corro. Salto enquanto grito. Desafio a natureza. A mesma que me rodeia, a mesma que te criou. Irei pontapear os troncos das árvores e ficarei satisfeito apenas quando ouvir estalar os ossos dos meus pés. Rastejarei. Morderei a terra no intuito de a magoar. Sim, ao menos naquele momento, naquela pequena porção de terreno, estarei a perturbar o planeta e poderei regozijar-me imaginando o seu lamento de dor, ou quanto muito de incómodo, pois serei como o mosquito que não causa a dor com a mordida, mas cuja comichão e irritação na pele deixa bem latentes. Quando os meus dentes se quebrarem e a minha língua suja pela terra estiver cortada, é para as minhas mãos que a minha atenção irei voltar. Com elas escavarei um buraco na encosta desta montanha. Um buraco fundo o suficiente para que nele caiba o meu corpo, o meu ego e a minha ira. Ambos maiores que eu. Por fim, após horas empurrado pelo vento e aliviado pela chuva, cairei na minha própria cova. As minhas unhas desapareceram, cada ponta dos meus dedos é uma massa de carne e sangue derramado sobre tudo aquilo que tocam. Falta pouco. No derradeiro acto de descanso sei que irei visualizar a tua face. Conseguirei ler nos teus lábios frases que me dizem o quanto não valho, o quanto não sou, o quanto não faço... Em ira, levarei os dedos aos olhos, e assolado pela maior dor física que possa imaginar, arrancá-los-ei! Sangue por todo o meu corpo. Pouco falta para morder a língua. Mas não. Não o posso fazer. Os meus dentes estão algures crivados na terra, como oferta final em troca do que nunca me foi auferido. Seja. Usarei esta língua, esta boca, para proferir as últimas palavras antes do fim:  Nunca mais!

Morte Consciente

Ainda não entendi como isto me pôde acontecer. Como ainda está a acontecer. Lembro-me de atravessar a rua, recordo uma buzina e o som de pneus a derrapar no piso molhado da estrada. Sempre fui inconsciente no que toca a atravessar a rua. Sempre cheio de pressa, ignorando passagens para peões se não as houvesse por perto. E quando não as ignorava, eram os sinais verdes, que me indicavam quando poderia passar, que desvalorizava. A última sensação que ainda consigo focar é a da chuva caindo sobre mim, inundando o meu rosto. Estava deitado no alcatrão, olhei para o lado meio torpe e vi o condutor desesperado sair do veículo cinzento ao meu encontro. A partir daí foi esta escuridão. Não estou num hospital, mas escuto os gritos, choros e lamentos das pessoas em meu redor. Algumas vozes são conhecidas, mulher, irmãs, filhos… Outras nem tanto. Penso que estou morto. Curiosa expressão esta, “penso”. Acho estranho, porque supostamente não deveria ter consciência de nada no momento em que o meu coração parou. Duvido que haja uma desculpa esotérica para o que me está a acontecer, porque não vi qualquer túnel com uma luz em minha direcção, inspirando-me paz. Não vi céu, inferno, nirvana… O que quer que seja. Escuto tudo o que dizem em meu redor. A minha mulher entre soluços pergunta-me porquê eu. Do meu filho escuto apenas o choro abafado e a minha irmã provavelmente apoiando-o como pode, sofrendo também, dizendo que foi Deus que assim quis. Se foi assim que deus quis, onde está ele agora? Não há ninguém que me tire deste estado? Vivo ou morto. Tenho 29 anos, sou jovem demais para morrer e velho demais para que a vida ainda me fascine. Pronto, agora estão a rezar a Ave-maria. Porque o fazem? Todos sabem que sou ateu, ou era ateu. Não posso ver ou sentir, mas espero que não me tenham colocado o terço entre as mãos. Se realmente me querem homenagear, não pela minha morte mas pela pessoa que fui em vida, deveria colocar-me um maço dos meus cigarros e uma garrafa do meu whisky favorito. Aí sim, seriam fiéis à minha memória. Interessante, estou a ouvir a tristeza de todas as pessoas que, penso eu, gostavam de mim, e não sinto qualquer tipo de sofrimento pela angústia deles. Não me sinto desesperado por lhes dar um sinal. Aliás, não sinto coisa alguma. Tristeza, alegria, dores ou paz. Consigo pensar, consigo ouvir e nada mais do que isso. Então estar morto é isto. Não há paraíso ou outro mundo qualquer extra-físico. Simplesmente o corpo cessa de funcionar, e mantemos estas duas faculdades? Cientificamente não faz qualquer sentido, é suposto “apagarmos” completamente, visto que um corpo sem vida perde qualquer tipo de função. Bom, consigo raciocinar mas não me tornei um génio por morrer. Logo, este é um mistério que julgo melhor descartar. Ainda não terminaram as rezas? Por favor, se realmente é preciso entoar qualquer coisa por mim, tragam uma aparelhagem e ponham algo dos Breaking Benjamin. “Sooner or Later” agora poderia ajudar-me. Ou outra qualquer das que me acompanhavam neste meu estado adulto. Mas não, se estou realmente morto, as pessoas estranhariam passar na capela mortuária e escutar rock no volume máximo. Achariam os meus visitantes uns hereges. Sem falar no abade, que certamente diria que aquela música se não fosse desligada conspurcaria o meu funeral e condenaria a minha alma aos infernos, onde o diabo me faria muito mal para toda a eternidade. Os meus entes queridos são tão hipócritas, sabendo bem da minha natureza, organizaram este pequeno circo. Conhecendo a minha mulher, a mulher das aparências, acho um belo progresso não ter contratado uma empresa qualquer para servir canapés na minha cerimónia fúnebre. Como me terá vestido? Certamente um daqueles fatos que eu detestava, com uma gravata de seda, sempre escolhida por ela, estrangulando-me como se fosse um dos seus caniches. Ah se eu tivesse seguido em frente com a minha ideia louca dos 18 anos. Terminava os estudos, mandava a faculdade enfiar a bela da propina pelo recto acima e partia para o México, por exemplo. Arranjava um trabalhito aqui e outro ali, o resto do tempo era passado com uma tequilla na mão a ouvir os mariachis com uma qualquer latina vistosa, de ancas largas e peito avantajado. Se ao menos não me tivesse deixado manipular tanto pela minha família. De quem será a culpa? Deles por me manipularem, ou minha por deixar que o fizessem? Agora não interessa, o mal está feito, além disso não me parece razoável estar pensar nisso agora. Terei muito tempo para me torturar com memórias de fracassos e especulações do que poderia ter sido a minha vida caso o caminho tomado diferisse deste, que me trouxe até aqui. E se tivesse persistido na minha relação com a Patrícia? E se ela não tivesse abortado o meu primeiro filho? E se em vez de ir para Ponte de Lima naquele ano, onde conheci a minha esposa, tivesse ido para outro qualquer local? Tantos “ses”. Certamente se estivesse vivo agora, o pânico começaria a apoderar-se de mim neste preciso momento. Eu não quero estar morto, tinha ainda tantos anos pela frente. Nada mais posso fazer, ou sentir… Acabaram-se as esperanças, as novas experiências, os raspanetes ao meu miúdo por não fazer os deveres, as discussões com a Laura porque a comida tinha pouco sal. Nunca mais poderei conduzir o meu carro a 220km numa estrada cujo limite é de 80. Acabaram-se as multas da GNR. Ver o meu clube no estádio, e delirar no meio dos meus amigos, nunca mais. Não pago mais impostos. Continuo sem compreender o motivo da minha existência. Em vida não atingi grandes feitos. Fui semelhante ao mais comum dos mortais. Nasci, cresci, estudei, trabalhei, casei, tive filhos e, por fim, morri. Qual foi então o propósito da minha chegada aqui? Existirá mesmo um desígnio do destino para cada um de nós a partir do primeiro segundo em que abrimos os olhos para este mundo? Não vejo qual possa ter sido o meu. Se o sangue ainda me corresse nas veias, estaria a sentir-me atormentado por esta ideia, por esta existência fracassada e desprovida de originalidade. Mas o sangue já se encontra estagnado e em processo de coagulação. Não consigo mais sentir-me sequer frustrado, o que me permite agora discernir os acontecimentos com mais imparcialidade, sem receio de sentimentos menos nobres ou condicionantes morais. Interessante. Parece que nesta morte consciente descobri a verdadeira liberdade de pensamento. Por outro lado, de que me serve esta nova capacidade, se não tenho como a transmitir a quem me rodeia? Ou para a minha valorização pessoal? De nada me serve. Porque insisto eu então em pensar? Adquiri o combustível mas perdi o veículo. O meu corpo nada mais pode fazer por mim. Estou morto, era suposto descansar em paz. É que nem insisto em pensar por aborrecimento. O tédio também faz parte dos sentimentos perdidos. Não compreendo o porquê da vaga recordação dos meus colegas de escola. O início marcante dos meus vinte anos persiste como que em pano de fundo para todos os meus pensamentos. Nada anterior ou posterior a isso. Porque será? Talvez funcionasse como alicerce para o pouco ânimo que me restava. Para poder melhor seguir em frente com a minha vida de devaneios fétidos. Quem me dera poder sorrir agora. Lembrei-me da manifestação e posterior vigília nocturna que fizemos por três dias e noites seguidas em protesto contra o facto de o autarca da cidade insistir em entregar a gerência de um teatro a um investidor privado. Tudo começou após as aulas. As várias turmas da escola foram convocadas por um dos professores para a manifestação que estava marcada para as 18:00 horas daquele mesmo dia. Daríamos apoio aos intrépidos ocupantes que se encontravam lá barricados desde o dia anterior. Algumas horas depois, tambores, guitarras e discursos findaram. A lei do ruído entrava em vigor a partir das 22:00. As vozes de rebelião, essas não cessaram. Apenas o timbre foi moderado. Começou então a vigília, noite adentro. Cerveja, muita cerveja e vinho. Conversas cómicas, distribuição dos mantimentos necessários para que o estômago não nos desmotivasse da causa, corridas aflitas em busca de uma casa de banho. O meu amigo punk tocava guitarra ao meu lado. Acordes estridentes porém calmos. Quando a chuva caiu e nos abrigámos no coberto, dominados pelo frio, chegou a Viviana com uma manta laranja que nos proporcionou alguns minutos de agradável conforto. Elogiei as suas tatuagens. Havia observado as fotos dela algures num site. Duas asas lindíssimas na parte superior das costas. Disse-me que não estavam ainda terminadas, faltava dar-lhes um efeito qualquer de sombra. Uma bela e cativante mulher a Viviana, sem dúvida. Noites fatigantes, muitas emoções, receio da polícia e cansaço próprio de quem não sabia o que era dormir confortavelmente fazia algum tempo. Pensando melhor, até essa altura me deixa alguma mácula. Detestava ter de me levantar cedo, todos os dias da semana, para ir ter aulas em conjunto com raparigas frívolas e histéricas. Detestava os berros no meio da rua e a forma como perturbavam as lições. Detestava as intrigas que inventavam apenas para passar o tempo. Detestava estar ali trancado, de manhã até chegar a noite, tendo apenas tempo para jantar e dormir. Queria ficar acordado até tarde e fazer o que mais gostava, fosse o que fosse. Acordar depois das 13:00 horas e sem pressões da minha família, com quem vivia, fazer calmamente a minha rotina e estar com as pessoas de quem gostava. Almejava a segurança no futuro necessária para fazer tudo isso de consciência tranquila. Só assim poderia sentir o prazer que essas pequenas coisas me proporcionavam. Foi-me auferida uma vida merdosa. Acredito agora que estou melhor assim. Antes morto e em paz, do que vivo nas malhas da sociedade que me trancou na sua tacanhez. Já tive o suficiente. Chega, basta de estar vivo e ter de vos aguentar a todos. Sim, vocês, aqueles que imagino escutando o que penso agora, apenas porque tem piada. Já chega. Não preciso mais dos vossos olhares, opiniões, acções, crueldade. Nunca precisei. Tudo o que souberam fazer foi torturar-me, condicionar-me… E para quê? Que prazer nojento tiraram disso? Nunca quis descarrilar os vossos comboios. Nunca cortei os travões dos vossos carros. Nunca envenenei as vossas bebidas ou pontapeei os vossos animais. Tudo o que queria era ser deixado em paz. Porquê? A essa questão terão de ser vocês a responder. Mas não a mim, pois na cova não poderei escutar. Perguntem a essa coisinha doente que não usam constantemente com medo de verem o esterco de gente que são: A vossa mente. Vejam como a vida é ténue e que mau uso lhe dão. Redimam-se ou não, isso é convosco. Não vos desejo qualquer mal. Tudo o que gostaria era que uma tempestade se abatesse sobre a vossa região. Que o cemitério onde serei sepultado seja inundado e o cheiro a terra molhada se alastre e abafe por completo a fetidez dos vossos actos. Que com a chuva e o frio fiquem todos fechados nas vossas casas, em retiro, impotentes perante o vosso destino. Que sintam aí a paz que nunca me permitiram sentir. Precisamente para compreenderem o quão importante era para mim aquilo de que fui privado por tantos anos. Acabe-se o sol para todos vós, para que não vos tolde ou amacie a vida. Assim quando olharem para o céu, sentirão o que eu sinto. Quero que se arrependam, que ponderem e se lembrem das minhas palavras quando estiverem prestes a destilar o vosso veneno sobre alguém. Salvarão algumas pessoas dessa forma, não da morte, mas de uma existência tortuosa como a minha acabou por ser. Pode ser que quando a “gélida asa da morte” vos cobrir, não fiquem inquietos ou pensativos como eu. Talvez aí possam dormir e sentir o eterno descanso que é suposto a morte ser. Faltem aos vossos empregos, aos vossos estudos e mandem, apenas por momentos, as vossas aspirações de grandeza pelos ares. Desliguem os vossos telemóveis. Cortem as etiquetas das vossas roupas de marca. Queimem o dinheiro que tiverem nos bolsos. Usem como base para copos os cartões de crédito e encham, como balões, os preservativos que guardam na carteira por puro exibicionismo. Partam os próprios dentes contra uma esquina qualquer. Rasguem os álbuns de fotografias. Libertem-se do que puderem e sintam o que eu sinto agora, mas respirando. Ou então ignorem o que digo, não passam dos devaneios de um morto. Porém pensem, e quando a comida e a bebida não vos saciar mais o estômago? E quando não forem capazes de dar ou receber qualquer gesto de afecto ou ódio? E quando os vossos genitais esgotarem os fluidos e a luxúria cessar as suas funções? Que farão quando estiverem no meu lugar? Decerto o mesmo que eu. Isto não é retórica meus amigos, apenas perguntas. Perguntas cuja resposta me ajudaria a distrair alguns minutos do sítio onde estou agora confinado. Passaram pouco mais de vinte e quatro horas e já não encontro nada de relevante para recordar. Mais de vinte anos de vida resumidos em pouco mais de um dia. Triste. Como estará a minha mulher vestida? Melhor, como estará a minha cunhada vestida? Será que em minha homenagem vestiu aquela camisa púrpura que eu tanto gostava de desabotoar a partir do decote? Consigo visualizar na perfeição os seus mamilos. Finos, claros e duros. A forma como contorcia as ancas quando o orgasmo a atingia de forma violenta e pleno de culpa. Ela adorava a culpa. Acredito piamente, que na sua adorável mente sórdida, era a culpa que a excitava e não propriamente os meus atributos físicos. A forma como as lágrimas lhe enchiam o rosto enquanto se vestia para partir, jurando a si mesma que não se repetiria. Claro que algumas semanas depois me enviava um correio electrónico, suplicando um “remake” da sua consciência pesada. “Que o raciocínio lógico me chame depois à razão. Merda. Quero beijar-te e abraçar-te e... Quero! E quero fazê-lo sem escrúpulos. Quero estar contigo e ser tua, mais um dia. Como tu mesmo dizes, que se dane. Merda de mundo. Merda. Vem.” E eu fui. Foram estas as últimas palavras que lhe li. Ia ao encontro dela quando fechei os olhos pela última vez. Será que ao olhar-me assim, na urna, ainda sente o desejo tórrido de me beijar e abraçar e… uma última vez? Ainda não escutei a sua voz, mas sei que está cá. Deve apoiar os filhos que tanto gostavam do tio. O mesmo apoio deve dar ao sobrinho que perdeu o extremoso Pai. Abraçar a adorada irmã, transmitindo-lhe o seu amor fraternal. Essa conduta da minha prezada cunhada, faz-me lembrar uma namorada que tive na juventude. A Clara. Com excepção de que a Clara não possuía qualquer sensibilidade pela natureza humana, a não ser a sua própria. Uma engraçada loira de olhos azuis, inocente aparentava ser, de forma propositada. Adorava ser apaparicada e exigia-me fidelidade eterna. No entanto, depois de tanta moralidade, trocava mensagens obscenas com aquele que dizia ser o seu ex-namorado. Encontrava-se também com um colega de trabalho. Não coleccionava homens, coleccionava pénis. Claro que quando eu, ou outro dos seus namorados, demonstrávamos algum tipo de suspeita, ela mostrava-se ofendida e chegava mesmo a chorar face a tal injustiça. A injustiça de achar que aquela criatura tão pura fosse capaz de um acto tão cruel. Éramos sete ao todo. Queixava-se e questionava-se constantemente sobre o facto de existir ou não uma cirurgia que pudesse fazer à própria vagina. Segundo ela estava demasiado dilatada. Uma cómica rapariga a Clara, e fácil de conquistar também. Costumava rir-me muito ao lembrar-me desta história. Ao contá-la também. Terá ela conseguido a bendita operação? Conhecendo-a como a conheci, para a fazer até com o cirurgião seria capaz de se deitar. Tantas mulheres, tantas aventuras. O prazer que tirei de todas elas talvez seja a única coisa que repetiria se me fosse dada a oportunidade de voltar atrás. Sou fruto de uma época em que o homem é capaz de quase tudo para atingir os seus intentos, ou simplesmente satisfazer os caprichos requisitados pelo seu faminto ego. Em que a secretária se envolve sexualmente com o patrão, quarenta anos mais velho, apenas para ver a conta bancária crescer e assim poder ajudar a tia que tem entravada numa cama devido a uma trombose. Nesta época dourada há pelo menos três tipos de juventude, também. Os que seguem com afinco a autoridade dos tutores, levando uma vida regrada e que terminam os seus dias em empregos e casamentos medianos. Os que se julgam capazes de fazer tudo para mudar o mundo, escondendo-se nesse falso ideal para alcançar o tão ansiado protagonismo, seja ele mediático ou simplesmente nos seus modestos círculos de amizades. Acabam por, invariavelmente, fazer asneira. Pois faltam-lhes os ingredientes necessários para uma vitória social: Honestidade, humildade e audácia. Por fim, temos os catraios que fumam uns charros e roubam uns telemóveis, com o intuito de mais tarde os venderem e juntarem algumas massas para comprarem o seu amado haxixe. Os nossos idosos são também particularmente interessantes. Lamentam-se e falam com saudosismo dos tempos de Salazar. Ainda que na sua juventude fossem os primeiros a criticar, em pensamento, aquele que tanto agraciam agora aos domingos de tarde no jardim da freguesia. Entre uns e outros estão os adultos, que se matam a trabalhar para sustentar os jovens, não tendo assim tempo para lhes dar a atenção e acompanhamento necessário. E para, com os seus impostos, contribuírem para as pensões de miséria dos seus velhos, de forma a não se sentirem ingratos quando os enviarem para lares de terceira idade onde protestarão e chamarão por Salazar até falecerem com Alzheimer ou outra qualquer maleita. Quem imaginaria que este seria o mundo onde eu iria nascer? Certamente que os meus avós não. Os meus progenitores, esses talvez já suspeitassem. Mas fui eu quem foi atingido por ele no seu auge, e por fim esmagado. Coitadinho de mim. Então e o tipo de pessoa que eu fui eu? Que tipo de jovem fui? Em que género de adulto me tornei? Que espécie de velho teria eu sido, se morte não me tivesse vindo buscar? Pois, isso não me interessa relatar. Não me convém. Afinal de contas, sou português. Não está na nossa natureza admitir as falhas. Somos o eterno país das comadres, cada uma na sua janela, falando mal da vizinha. Quais conquistadores bravos quais quê? Não somos um povo de guerreiros. Somos um povo de comadres maldizentes com um lenço preto na cabeça e verruga peluda no nariz. Putas e vinho verde, para os homens. Intrigas e deslealdade para as mulheres (embora elas também apreciem o seu copito de vinho.) Alto. Está aqui o padre, fala com a minha mulher. Que é que está a dizer? Raios partam as carpideiras da minha família, tanto choro e gemido não me deixam perceber nada do que ele lhe diz. Hum… Agora calaram-se, beatas ridículas, basta o prior falar e ficam todas embasbacadas a escutar como se fosse o próprio criador a falar. Mas em casa, com o marido e os filhos, tudo o que sabem fazer é berrar. E aqui está o padreco com os seus sermões sobre o facto de Deus saber o que faz nestas alturas. Afirma convictamente que agora estou num sitio melhor. Que raio! É este o “sítio melhor”? Não fui a lado nenhum, estou aqui a ouvi-los, nesta merda feita em madeira sem conseguir sentir sequer um pelo do meu corpo. Esse cabrão do padre é que deveria estar no meu lugar. Primeiro porque não faz ideia do que é estar morto para fazer aquele tipo de afirmações. Segundo porque uma vida inteira, passada a dar lições de moral sobre coisas que nunca experimentou, comendo e bebendo à custa dos paroquianos e quem sabe a envolver-se com as suas irmãs freiras, abusando até ao limite da hipocrisia, é decerto bem menos útil do que a minha foi. Não suporto estes basbaques eclesiásticos. Estou curioso por ver o que acontece depois de me sepultarem. Quero ver o que me reserva a eternidade, para além do silêncio. Estou enfadado por toda esta situação. Tantas vezes fiz este exercício de imaginação, achando-lhe até uma certa piada, mas nunca imaginei vivê-lo na íntegra. Pelo menos, não tão cedo. Gostaria de ter tido a oportunidade de sentir uma vez mais o cheiro da terra do jardim molhada pela chuva em casa dos meus avós paternos. De me refastelar com bolo de laranja e cacau quente junta daquela lareira, no Inverno. Acima de tudo, recordo com carinho a época dos meus quatro anos de idade, quando me deitava no meio dos meus avós, à noite, a devorar chocolates enquanto olhava para a televisão. Agora eles já não estão cá. Eu também não. Não existe mais nada excepto recordações de infância e o meu óbvio fracasso em tornar-me no adulto magnífico que tanto fantasiei um dia ser. Quando penso em sentimentos que me trazem alguma paz, penso nas manhãs em que já atrasado para as aulas, me sentava aguardando o próximo comboio no apeadeiro da territa onde vivia. Era Outono. Observava o céu carregado de nuvens cinzentas, os ramos das árvores baloiçando e deixando cair algumas folhas sobre os carris. Miramar. Que saudades. Se caminhasse mais para além do apeadeiro, chegava ao Senhor da Pedra. Uma praia agradável cujos arredores haviam sido alvo de obras, com o passar do tempo. Havia um certo misticismo em relação ao local. No meio de toda aquela areia, havia uma formação rochosa, e sobre essas rochas uma capela católica, outrora altar pagão. As crendices levavam velhotas e raparigas novas de todos os cantos da zona norte a lá ir pela madrugada, acender velas e vociferar esconjuros a troco de dinheiro. Bruxas, era o que lhes chamavam. A mim nunca embruxaram, talvez porque todos os meus inimigos eram pobres, e as poucas poupanças que tinham não lhes bastavam para encomendarem qualquer desgraça sobre mim. Sempre que as insónias me assolavam, mesmo recentemente, passeava-me por lá, escutando o mar no meio da penumbra. Sim, tenho saudades. Castelo Branco, por seu lado, também era consolador no mês de Novembro. Naquela cidade pequena, pelo menos em tamanho, as ruas eram inundadas por chuva e pelo cheiro a castanhas que pairava no ar. Notava-se predominantemente junto da escola que lá frequentei durante um ano. Quando o frio apertava era maravilhosa a sensação de entrar em casa, ao final do dia, e sentir o quente bafio espalhado pelo aquecedor que deixava sempre ligado antes de sair de casa pela manhã. O edifício onde residia era mesmo em frente ao mercado municipal e portanto era costume ser acordado bem cedo pelo som das buzinas dos carros de hortaliças que chegavam. E quando não eram os carros, eram os ciganos que vendiam roupa à porta desse mesmo mercado, por não lhes ser permitido o comércio dentro de portas. As pombas cagavam-me a varanda toda. Era natural acordar de mau humor, pois a primeira experiência sonora do dia eram os gritos esganiçados das vendedoras, precedidas pelo degredo visual de ver pombos defecando por tudo quanto era lado da minha varanda e parapeitos das janelas. Ainda assim a nostalgia prevalece. Foram momentos únicos que jamais poderei reviver. Pronto, tudo está prestes a terminar, pressinto-o. Escuto passos de um lado para o outro, as vozes calaram-se. O derradeiro momento toma agora início. Há qualquer coisa em madeira a ranger, é provável que me estejam já a pegar no caixão. Aqui vou eu todo satisfeito, adeus basbaques acéfalos da minha existência. Estava saturado de vós, mas muito mais de mim. Não tenho de me olhar mais ao espelho. Não tenho de levar com mais portas na cara, durante a minha tentativa de conseguir a oportunidade de largar este trabalho ridículo e fazer aquilo de que realmente gosto. Mas, estarei a ouvir um rádio? Quem raio se lembraria de trazer um rádio para o meu funeral? E junto com ele um som que se assemelha a um autoclismo. Mas não pode ser. Devo estar já a ser carregado para fora da capela mortuária, e na rua não há lavabos, pelo menos que eu saiba. A minha mulher está a falar comigo, não consigo entender o que me diz, mas ela não vê que estou morto? Ficou louca de vez. Deixei de escutar todas as vozes excepto a dela. Não compreendo. Tem de haver uma explicação para isto. Agora são torneiras. Água a correr. Isto é impossível. Nunca estive morto antes mas sei que isto não são sons que se oiçam num cemitério. É provável que ainda não tenha chegado lá mas mesmo em plena rua não é normal ouvir isto. Tem de haver uma explicação. Tem de haver. Bom, não interessa. De qualquer das formas dentro de momentos estarei sepultado e o silêncio predominará. Não necessito de me preocupar mais com o que se passa em meu redor. Sou, agora, como as pedras da rua. Todos passam por elas, pisam-nas ou simplesmente passam-lhes ao lado. E elas, imóveis, assistem a tudo isto na maior das indiferenças. Porque não sentem. É tão bom ser inanimado. É tão bom não sentir. Sabe tão bem estar morto.
- És sempre a mesma coisa. Nunca se pode contar contigo para nada. Já viste que horas são?
- Hum… Onde é que eu estou?
- Oh Diogo acorda de uma vez.
- Mas… Cláudia?
- Não, sou a mulher da fruta. Claro que sou eu. Já olhaste para o relógio? São oito e meia. Era suposto estares a pé às sete.
- Pois é, desculpa-me.
- Vais chegar atrasado ao emprego novamente e já não vais a tempo de levar o teu filho para a escola. Cada vez estou mais farta de ti.
- Eu sei. Levanto-me já.
FIM