domingo, 12 de fevereiro de 2012

Morte Consciente

Ainda não entendi como isto me pôde acontecer. Como ainda está a acontecer. Lembro-me de atravessar a rua, recordo uma buzina e o som de pneus a derrapar no piso molhado da estrada. Sempre fui inconsciente no que toca a atravessar a rua. Sempre cheio de pressa, ignorando passagens para peões se não as houvesse por perto. E quando não as ignorava, eram os sinais verdes, que me indicavam quando poderia passar, que desvalorizava. A última sensação que ainda consigo focar é a da chuva caindo sobre mim, inundando o meu rosto. Estava deitado no alcatrão, olhei para o lado meio torpe e vi o condutor desesperado sair do veículo cinzento ao meu encontro. A partir daí foi esta escuridão. Não estou num hospital, mas escuto os gritos, choros e lamentos das pessoas em meu redor. Algumas vozes são conhecidas, mulher, irmãs, filhos… Outras nem tanto. Penso que estou morto. Curiosa expressão esta, “penso”. Acho estranho, porque supostamente não deveria ter consciência de nada no momento em que o meu coração parou. Duvido que haja uma desculpa esotérica para o que me está a acontecer, porque não vi qualquer túnel com uma luz em minha direcção, inspirando-me paz. Não vi céu, inferno, nirvana… O que quer que seja. Escuto tudo o que dizem em meu redor. A minha mulher entre soluços pergunta-me porquê eu. Do meu filho escuto apenas o choro abafado e a minha irmã provavelmente apoiando-o como pode, sofrendo também, dizendo que foi Deus que assim quis. Se foi assim que deus quis, onde está ele agora? Não há ninguém que me tire deste estado? Vivo ou morto. Tenho 29 anos, sou jovem demais para morrer e velho demais para que a vida ainda me fascine. Pronto, agora estão a rezar a Ave-maria. Porque o fazem? Todos sabem que sou ateu, ou era ateu. Não posso ver ou sentir, mas espero que não me tenham colocado o terço entre as mãos. Se realmente me querem homenagear, não pela minha morte mas pela pessoa que fui em vida, deveria colocar-me um maço dos meus cigarros e uma garrafa do meu whisky favorito. Aí sim, seriam fiéis à minha memória. Interessante, estou a ouvir a tristeza de todas as pessoas que, penso eu, gostavam de mim, e não sinto qualquer tipo de sofrimento pela angústia deles. Não me sinto desesperado por lhes dar um sinal. Aliás, não sinto coisa alguma. Tristeza, alegria, dores ou paz. Consigo pensar, consigo ouvir e nada mais do que isso. Então estar morto é isto. Não há paraíso ou outro mundo qualquer extra-físico. Simplesmente o corpo cessa de funcionar, e mantemos estas duas faculdades? Cientificamente não faz qualquer sentido, é suposto “apagarmos” completamente, visto que um corpo sem vida perde qualquer tipo de função. Bom, consigo raciocinar mas não me tornei um génio por morrer. Logo, este é um mistério que julgo melhor descartar. Ainda não terminaram as rezas? Por favor, se realmente é preciso entoar qualquer coisa por mim, tragam uma aparelhagem e ponham algo dos Breaking Benjamin. “Sooner or Later” agora poderia ajudar-me. Ou outra qualquer das que me acompanhavam neste meu estado adulto. Mas não, se estou realmente morto, as pessoas estranhariam passar na capela mortuária e escutar rock no volume máximo. Achariam os meus visitantes uns hereges. Sem falar no abade, que certamente diria que aquela música se não fosse desligada conspurcaria o meu funeral e condenaria a minha alma aos infernos, onde o diabo me faria muito mal para toda a eternidade. Os meus entes queridos são tão hipócritas, sabendo bem da minha natureza, organizaram este pequeno circo. Conhecendo a minha mulher, a mulher das aparências, acho um belo progresso não ter contratado uma empresa qualquer para servir canapés na minha cerimónia fúnebre. Como me terá vestido? Certamente um daqueles fatos que eu detestava, com uma gravata de seda, sempre escolhida por ela, estrangulando-me como se fosse um dos seus caniches. Ah se eu tivesse seguido em frente com a minha ideia louca dos 18 anos. Terminava os estudos, mandava a faculdade enfiar a bela da propina pelo recto acima e partia para o México, por exemplo. Arranjava um trabalhito aqui e outro ali, o resto do tempo era passado com uma tequilla na mão a ouvir os mariachis com uma qualquer latina vistosa, de ancas largas e peito avantajado. Se ao menos não me tivesse deixado manipular tanto pela minha família. De quem será a culpa? Deles por me manipularem, ou minha por deixar que o fizessem? Agora não interessa, o mal está feito, além disso não me parece razoável estar pensar nisso agora. Terei muito tempo para me torturar com memórias de fracassos e especulações do que poderia ter sido a minha vida caso o caminho tomado diferisse deste, que me trouxe até aqui. E se tivesse persistido na minha relação com a Patrícia? E se ela não tivesse abortado o meu primeiro filho? E se em vez de ir para Ponte de Lima naquele ano, onde conheci a minha esposa, tivesse ido para outro qualquer local? Tantos “ses”. Certamente se estivesse vivo agora, o pânico começaria a apoderar-se de mim neste preciso momento. Eu não quero estar morto, tinha ainda tantos anos pela frente. Nada mais posso fazer, ou sentir… Acabaram-se as esperanças, as novas experiências, os raspanetes ao meu miúdo por não fazer os deveres, as discussões com a Laura porque a comida tinha pouco sal. Nunca mais poderei conduzir o meu carro a 220km numa estrada cujo limite é de 80. Acabaram-se as multas da GNR. Ver o meu clube no estádio, e delirar no meio dos meus amigos, nunca mais. Não pago mais impostos. Continuo sem compreender o motivo da minha existência. Em vida não atingi grandes feitos. Fui semelhante ao mais comum dos mortais. Nasci, cresci, estudei, trabalhei, casei, tive filhos e, por fim, morri. Qual foi então o propósito da minha chegada aqui? Existirá mesmo um desígnio do destino para cada um de nós a partir do primeiro segundo em que abrimos os olhos para este mundo? Não vejo qual possa ter sido o meu. Se o sangue ainda me corresse nas veias, estaria a sentir-me atormentado por esta ideia, por esta existência fracassada e desprovida de originalidade. Mas o sangue já se encontra estagnado e em processo de coagulação. Não consigo mais sentir-me sequer frustrado, o que me permite agora discernir os acontecimentos com mais imparcialidade, sem receio de sentimentos menos nobres ou condicionantes morais. Interessante. Parece que nesta morte consciente descobri a verdadeira liberdade de pensamento. Por outro lado, de que me serve esta nova capacidade, se não tenho como a transmitir a quem me rodeia? Ou para a minha valorização pessoal? De nada me serve. Porque insisto eu então em pensar? Adquiri o combustível mas perdi o veículo. O meu corpo nada mais pode fazer por mim. Estou morto, era suposto descansar em paz. É que nem insisto em pensar por aborrecimento. O tédio também faz parte dos sentimentos perdidos. Não compreendo o porquê da vaga recordação dos meus colegas de escola. O início marcante dos meus vinte anos persiste como que em pano de fundo para todos os meus pensamentos. Nada anterior ou posterior a isso. Porque será? Talvez funcionasse como alicerce para o pouco ânimo que me restava. Para poder melhor seguir em frente com a minha vida de devaneios fétidos. Quem me dera poder sorrir agora. Lembrei-me da manifestação e posterior vigília nocturna que fizemos por três dias e noites seguidas em protesto contra o facto de o autarca da cidade insistir em entregar a gerência de um teatro a um investidor privado. Tudo começou após as aulas. As várias turmas da escola foram convocadas por um dos professores para a manifestação que estava marcada para as 18:00 horas daquele mesmo dia. Daríamos apoio aos intrépidos ocupantes que se encontravam lá barricados desde o dia anterior. Algumas horas depois, tambores, guitarras e discursos findaram. A lei do ruído entrava em vigor a partir das 22:00. As vozes de rebelião, essas não cessaram. Apenas o timbre foi moderado. Começou então a vigília, noite adentro. Cerveja, muita cerveja e vinho. Conversas cómicas, distribuição dos mantimentos necessários para que o estômago não nos desmotivasse da causa, corridas aflitas em busca de uma casa de banho. O meu amigo punk tocava guitarra ao meu lado. Acordes estridentes porém calmos. Quando a chuva caiu e nos abrigámos no coberto, dominados pelo frio, chegou a Viviana com uma manta laranja que nos proporcionou alguns minutos de agradável conforto. Elogiei as suas tatuagens. Havia observado as fotos dela algures num site. Duas asas lindíssimas na parte superior das costas. Disse-me que não estavam ainda terminadas, faltava dar-lhes um efeito qualquer de sombra. Uma bela e cativante mulher a Viviana, sem dúvida. Noites fatigantes, muitas emoções, receio da polícia e cansaço próprio de quem não sabia o que era dormir confortavelmente fazia algum tempo. Pensando melhor, até essa altura me deixa alguma mácula. Detestava ter de me levantar cedo, todos os dias da semana, para ir ter aulas em conjunto com raparigas frívolas e histéricas. Detestava os berros no meio da rua e a forma como perturbavam as lições. Detestava as intrigas que inventavam apenas para passar o tempo. Detestava estar ali trancado, de manhã até chegar a noite, tendo apenas tempo para jantar e dormir. Queria ficar acordado até tarde e fazer o que mais gostava, fosse o que fosse. Acordar depois das 13:00 horas e sem pressões da minha família, com quem vivia, fazer calmamente a minha rotina e estar com as pessoas de quem gostava. Almejava a segurança no futuro necessária para fazer tudo isso de consciência tranquila. Só assim poderia sentir o prazer que essas pequenas coisas me proporcionavam. Foi-me auferida uma vida merdosa. Acredito agora que estou melhor assim. Antes morto e em paz, do que vivo nas malhas da sociedade que me trancou na sua tacanhez. Já tive o suficiente. Chega, basta de estar vivo e ter de vos aguentar a todos. Sim, vocês, aqueles que imagino escutando o que penso agora, apenas porque tem piada. Já chega. Não preciso mais dos vossos olhares, opiniões, acções, crueldade. Nunca precisei. Tudo o que souberam fazer foi torturar-me, condicionar-me… E para quê? Que prazer nojento tiraram disso? Nunca quis descarrilar os vossos comboios. Nunca cortei os travões dos vossos carros. Nunca envenenei as vossas bebidas ou pontapeei os vossos animais. Tudo o que queria era ser deixado em paz. Porquê? A essa questão terão de ser vocês a responder. Mas não a mim, pois na cova não poderei escutar. Perguntem a essa coisinha doente que não usam constantemente com medo de verem o esterco de gente que são: A vossa mente. Vejam como a vida é ténue e que mau uso lhe dão. Redimam-se ou não, isso é convosco. Não vos desejo qualquer mal. Tudo o que gostaria era que uma tempestade se abatesse sobre a vossa região. Que o cemitério onde serei sepultado seja inundado e o cheiro a terra molhada se alastre e abafe por completo a fetidez dos vossos actos. Que com a chuva e o frio fiquem todos fechados nas vossas casas, em retiro, impotentes perante o vosso destino. Que sintam aí a paz que nunca me permitiram sentir. Precisamente para compreenderem o quão importante era para mim aquilo de que fui privado por tantos anos. Acabe-se o sol para todos vós, para que não vos tolde ou amacie a vida. Assim quando olharem para o céu, sentirão o que eu sinto. Quero que se arrependam, que ponderem e se lembrem das minhas palavras quando estiverem prestes a destilar o vosso veneno sobre alguém. Salvarão algumas pessoas dessa forma, não da morte, mas de uma existência tortuosa como a minha acabou por ser. Pode ser que quando a “gélida asa da morte” vos cobrir, não fiquem inquietos ou pensativos como eu. Talvez aí possam dormir e sentir o eterno descanso que é suposto a morte ser. Faltem aos vossos empregos, aos vossos estudos e mandem, apenas por momentos, as vossas aspirações de grandeza pelos ares. Desliguem os vossos telemóveis. Cortem as etiquetas das vossas roupas de marca. Queimem o dinheiro que tiverem nos bolsos. Usem como base para copos os cartões de crédito e encham, como balões, os preservativos que guardam na carteira por puro exibicionismo. Partam os próprios dentes contra uma esquina qualquer. Rasguem os álbuns de fotografias. Libertem-se do que puderem e sintam o que eu sinto agora, mas respirando. Ou então ignorem o que digo, não passam dos devaneios de um morto. Porém pensem, e quando a comida e a bebida não vos saciar mais o estômago? E quando não forem capazes de dar ou receber qualquer gesto de afecto ou ódio? E quando os vossos genitais esgotarem os fluidos e a luxúria cessar as suas funções? Que farão quando estiverem no meu lugar? Decerto o mesmo que eu. Isto não é retórica meus amigos, apenas perguntas. Perguntas cuja resposta me ajudaria a distrair alguns minutos do sítio onde estou agora confinado. Passaram pouco mais de vinte e quatro horas e já não encontro nada de relevante para recordar. Mais de vinte anos de vida resumidos em pouco mais de um dia. Triste. Como estará a minha mulher vestida? Melhor, como estará a minha cunhada vestida? Será que em minha homenagem vestiu aquela camisa púrpura que eu tanto gostava de desabotoar a partir do decote? Consigo visualizar na perfeição os seus mamilos. Finos, claros e duros. A forma como contorcia as ancas quando o orgasmo a atingia de forma violenta e pleno de culpa. Ela adorava a culpa. Acredito piamente, que na sua adorável mente sórdida, era a culpa que a excitava e não propriamente os meus atributos físicos. A forma como as lágrimas lhe enchiam o rosto enquanto se vestia para partir, jurando a si mesma que não se repetiria. Claro que algumas semanas depois me enviava um correio electrónico, suplicando um “remake” da sua consciência pesada. “Que o raciocínio lógico me chame depois à razão. Merda. Quero beijar-te e abraçar-te e... Quero! E quero fazê-lo sem escrúpulos. Quero estar contigo e ser tua, mais um dia. Como tu mesmo dizes, que se dane. Merda de mundo. Merda. Vem.” E eu fui. Foram estas as últimas palavras que lhe li. Ia ao encontro dela quando fechei os olhos pela última vez. Será que ao olhar-me assim, na urna, ainda sente o desejo tórrido de me beijar e abraçar e… uma última vez? Ainda não escutei a sua voz, mas sei que está cá. Deve apoiar os filhos que tanto gostavam do tio. O mesmo apoio deve dar ao sobrinho que perdeu o extremoso Pai. Abraçar a adorada irmã, transmitindo-lhe o seu amor fraternal. Essa conduta da minha prezada cunhada, faz-me lembrar uma namorada que tive na juventude. A Clara. Com excepção de que a Clara não possuía qualquer sensibilidade pela natureza humana, a não ser a sua própria. Uma engraçada loira de olhos azuis, inocente aparentava ser, de forma propositada. Adorava ser apaparicada e exigia-me fidelidade eterna. No entanto, depois de tanta moralidade, trocava mensagens obscenas com aquele que dizia ser o seu ex-namorado. Encontrava-se também com um colega de trabalho. Não coleccionava homens, coleccionava pénis. Claro que quando eu, ou outro dos seus namorados, demonstrávamos algum tipo de suspeita, ela mostrava-se ofendida e chegava mesmo a chorar face a tal injustiça. A injustiça de achar que aquela criatura tão pura fosse capaz de um acto tão cruel. Éramos sete ao todo. Queixava-se e questionava-se constantemente sobre o facto de existir ou não uma cirurgia que pudesse fazer à própria vagina. Segundo ela estava demasiado dilatada. Uma cómica rapariga a Clara, e fácil de conquistar também. Costumava rir-me muito ao lembrar-me desta história. Ao contá-la também. Terá ela conseguido a bendita operação? Conhecendo-a como a conheci, para a fazer até com o cirurgião seria capaz de se deitar. Tantas mulheres, tantas aventuras. O prazer que tirei de todas elas talvez seja a única coisa que repetiria se me fosse dada a oportunidade de voltar atrás. Sou fruto de uma época em que o homem é capaz de quase tudo para atingir os seus intentos, ou simplesmente satisfazer os caprichos requisitados pelo seu faminto ego. Em que a secretária se envolve sexualmente com o patrão, quarenta anos mais velho, apenas para ver a conta bancária crescer e assim poder ajudar a tia que tem entravada numa cama devido a uma trombose. Nesta época dourada há pelo menos três tipos de juventude, também. Os que seguem com afinco a autoridade dos tutores, levando uma vida regrada e que terminam os seus dias em empregos e casamentos medianos. Os que se julgam capazes de fazer tudo para mudar o mundo, escondendo-se nesse falso ideal para alcançar o tão ansiado protagonismo, seja ele mediático ou simplesmente nos seus modestos círculos de amizades. Acabam por, invariavelmente, fazer asneira. Pois faltam-lhes os ingredientes necessários para uma vitória social: Honestidade, humildade e audácia. Por fim, temos os catraios que fumam uns charros e roubam uns telemóveis, com o intuito de mais tarde os venderem e juntarem algumas massas para comprarem o seu amado haxixe. Os nossos idosos são também particularmente interessantes. Lamentam-se e falam com saudosismo dos tempos de Salazar. Ainda que na sua juventude fossem os primeiros a criticar, em pensamento, aquele que tanto agraciam agora aos domingos de tarde no jardim da freguesia. Entre uns e outros estão os adultos, que se matam a trabalhar para sustentar os jovens, não tendo assim tempo para lhes dar a atenção e acompanhamento necessário. E para, com os seus impostos, contribuírem para as pensões de miséria dos seus velhos, de forma a não se sentirem ingratos quando os enviarem para lares de terceira idade onde protestarão e chamarão por Salazar até falecerem com Alzheimer ou outra qualquer maleita. Quem imaginaria que este seria o mundo onde eu iria nascer? Certamente que os meus avós não. Os meus progenitores, esses talvez já suspeitassem. Mas fui eu quem foi atingido por ele no seu auge, e por fim esmagado. Coitadinho de mim. Então e o tipo de pessoa que eu fui eu? Que tipo de jovem fui? Em que género de adulto me tornei? Que espécie de velho teria eu sido, se morte não me tivesse vindo buscar? Pois, isso não me interessa relatar. Não me convém. Afinal de contas, sou português. Não está na nossa natureza admitir as falhas. Somos o eterno país das comadres, cada uma na sua janela, falando mal da vizinha. Quais conquistadores bravos quais quê? Não somos um povo de guerreiros. Somos um povo de comadres maldizentes com um lenço preto na cabeça e verruga peluda no nariz. Putas e vinho verde, para os homens. Intrigas e deslealdade para as mulheres (embora elas também apreciem o seu copito de vinho.) Alto. Está aqui o padre, fala com a minha mulher. Que é que está a dizer? Raios partam as carpideiras da minha família, tanto choro e gemido não me deixam perceber nada do que ele lhe diz. Hum… Agora calaram-se, beatas ridículas, basta o prior falar e ficam todas embasbacadas a escutar como se fosse o próprio criador a falar. Mas em casa, com o marido e os filhos, tudo o que sabem fazer é berrar. E aqui está o padreco com os seus sermões sobre o facto de Deus saber o que faz nestas alturas. Afirma convictamente que agora estou num sitio melhor. Que raio! É este o “sítio melhor”? Não fui a lado nenhum, estou aqui a ouvi-los, nesta merda feita em madeira sem conseguir sentir sequer um pelo do meu corpo. Esse cabrão do padre é que deveria estar no meu lugar. Primeiro porque não faz ideia do que é estar morto para fazer aquele tipo de afirmações. Segundo porque uma vida inteira, passada a dar lições de moral sobre coisas que nunca experimentou, comendo e bebendo à custa dos paroquianos e quem sabe a envolver-se com as suas irmãs freiras, abusando até ao limite da hipocrisia, é decerto bem menos útil do que a minha foi. Não suporto estes basbaques eclesiásticos. Estou curioso por ver o que acontece depois de me sepultarem. Quero ver o que me reserva a eternidade, para além do silêncio. Estou enfadado por toda esta situação. Tantas vezes fiz este exercício de imaginação, achando-lhe até uma certa piada, mas nunca imaginei vivê-lo na íntegra. Pelo menos, não tão cedo. Gostaria de ter tido a oportunidade de sentir uma vez mais o cheiro da terra do jardim molhada pela chuva em casa dos meus avós paternos. De me refastelar com bolo de laranja e cacau quente junta daquela lareira, no Inverno. Acima de tudo, recordo com carinho a época dos meus quatro anos de idade, quando me deitava no meio dos meus avós, à noite, a devorar chocolates enquanto olhava para a televisão. Agora eles já não estão cá. Eu também não. Não existe mais nada excepto recordações de infância e o meu óbvio fracasso em tornar-me no adulto magnífico que tanto fantasiei um dia ser. Quando penso em sentimentos que me trazem alguma paz, penso nas manhãs em que já atrasado para as aulas, me sentava aguardando o próximo comboio no apeadeiro da territa onde vivia. Era Outono. Observava o céu carregado de nuvens cinzentas, os ramos das árvores baloiçando e deixando cair algumas folhas sobre os carris. Miramar. Que saudades. Se caminhasse mais para além do apeadeiro, chegava ao Senhor da Pedra. Uma praia agradável cujos arredores haviam sido alvo de obras, com o passar do tempo. Havia um certo misticismo em relação ao local. No meio de toda aquela areia, havia uma formação rochosa, e sobre essas rochas uma capela católica, outrora altar pagão. As crendices levavam velhotas e raparigas novas de todos os cantos da zona norte a lá ir pela madrugada, acender velas e vociferar esconjuros a troco de dinheiro. Bruxas, era o que lhes chamavam. A mim nunca embruxaram, talvez porque todos os meus inimigos eram pobres, e as poucas poupanças que tinham não lhes bastavam para encomendarem qualquer desgraça sobre mim. Sempre que as insónias me assolavam, mesmo recentemente, passeava-me por lá, escutando o mar no meio da penumbra. Sim, tenho saudades. Castelo Branco, por seu lado, também era consolador no mês de Novembro. Naquela cidade pequena, pelo menos em tamanho, as ruas eram inundadas por chuva e pelo cheiro a castanhas que pairava no ar. Notava-se predominantemente junto da escola que lá frequentei durante um ano. Quando o frio apertava era maravilhosa a sensação de entrar em casa, ao final do dia, e sentir o quente bafio espalhado pelo aquecedor que deixava sempre ligado antes de sair de casa pela manhã. O edifício onde residia era mesmo em frente ao mercado municipal e portanto era costume ser acordado bem cedo pelo som das buzinas dos carros de hortaliças que chegavam. E quando não eram os carros, eram os ciganos que vendiam roupa à porta desse mesmo mercado, por não lhes ser permitido o comércio dentro de portas. As pombas cagavam-me a varanda toda. Era natural acordar de mau humor, pois a primeira experiência sonora do dia eram os gritos esganiçados das vendedoras, precedidas pelo degredo visual de ver pombos defecando por tudo quanto era lado da minha varanda e parapeitos das janelas. Ainda assim a nostalgia prevalece. Foram momentos únicos que jamais poderei reviver. Pronto, tudo está prestes a terminar, pressinto-o. Escuto passos de um lado para o outro, as vozes calaram-se. O derradeiro momento toma agora início. Há qualquer coisa em madeira a ranger, é provável que me estejam já a pegar no caixão. Aqui vou eu todo satisfeito, adeus basbaques acéfalos da minha existência. Estava saturado de vós, mas muito mais de mim. Não tenho de me olhar mais ao espelho. Não tenho de levar com mais portas na cara, durante a minha tentativa de conseguir a oportunidade de largar este trabalho ridículo e fazer aquilo de que realmente gosto. Mas, estarei a ouvir um rádio? Quem raio se lembraria de trazer um rádio para o meu funeral? E junto com ele um som que se assemelha a um autoclismo. Mas não pode ser. Devo estar já a ser carregado para fora da capela mortuária, e na rua não há lavabos, pelo menos que eu saiba. A minha mulher está a falar comigo, não consigo entender o que me diz, mas ela não vê que estou morto? Ficou louca de vez. Deixei de escutar todas as vozes excepto a dela. Não compreendo. Tem de haver uma explicação para isto. Agora são torneiras. Água a correr. Isto é impossível. Nunca estive morto antes mas sei que isto não são sons que se oiçam num cemitério. É provável que ainda não tenha chegado lá mas mesmo em plena rua não é normal ouvir isto. Tem de haver uma explicação. Tem de haver. Bom, não interessa. De qualquer das formas dentro de momentos estarei sepultado e o silêncio predominará. Não necessito de me preocupar mais com o que se passa em meu redor. Sou, agora, como as pedras da rua. Todos passam por elas, pisam-nas ou simplesmente passam-lhes ao lado. E elas, imóveis, assistem a tudo isto na maior das indiferenças. Porque não sentem. É tão bom ser inanimado. É tão bom não sentir. Sabe tão bem estar morto.
- És sempre a mesma coisa. Nunca se pode contar contigo para nada. Já viste que horas são?
- Hum… Onde é que eu estou?
- Oh Diogo acorda de uma vez.
- Mas… Cláudia?
- Não, sou a mulher da fruta. Claro que sou eu. Já olhaste para o relógio? São oito e meia. Era suposto estares a pé às sete.
- Pois é, desculpa-me.
- Vais chegar atrasado ao emprego novamente e já não vais a tempo de levar o teu filho para a escola. Cada vez estou mais farta de ti.
- Eu sei. Levanto-me já.
FIM

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