quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Vertigem


- Salta! Deixa-os para trás se queres sobreviver a ti mesmo. Queres a liberdade? Este é o momento. Foca-te no que está lá em baixo, na corrente que te espera, não lhe resistas e deixa-te levar. No final das contas, com ou sem amor, causas ou amizades, só tens o teu sangue. Não o derrames por mais ninguém. Nem por ti mesmo. Salta e mostra quem és no meio da corrente. O que tu tens agora são vertigens do futuro. Abraça-o de uma vez.

Dito isto, para si mesmo, saltou. As cordas em redor dos tornozelos iam rompendo uma por uma. Tinha as pernas marcadas do tempo que passaram apertadas. Ardiam. Não estava a saltar para casa porque essa ainda não existia. Não ia muito menos ao encontro de um amor porque o amor quando não é partilhado deixa de valer a pena. Havia um rio lá em baixo. Não sabia ao certo para onde a corrente o levaria ou se o impacto o deixaria novamente inconsciente. Era porém a última chance de se libertar e estava a abrir o peito a todos os riscos e incertezas inerentes aos últimos passos em direcção ao início. “Adeus, adeus… E olá!”: Pensava consigo mesmo numa queda que parecia interminável, de braços abertos rodopiando no ar com o vento tão cerrado que quase era impossível manter os olhos abertos. Alguns rostos eram penosos de imaginar, porque nem todos os olhos são fáceis de deixar para trás. Outros assemelhavam-se cada vez mais desfocados, e talvez pelo vazio que representavam, dizer-lhes adeus era mais fácil que atirar um maço de tabaco vazio ao lixo. Pela primeira vez em anos não estava com os punhos cerrados e a tensão que levava nos ombros fazia-se doer agora. Os braços iam bem abertos, fosse o que fosse que estivesse prestes a abraçar. Depois dos sinuosos caminhos que atravessou, ou por onde rastejou, aquela viagem terminaria numa queda livre. Sabia agora, de forma tão clara e límpida como o rio lá em baixo, que não se tratava de uma segunda oportunidade. Todos aqueles anos foram o prólogo daquele momento. O momento onde tudo se iria escrever, onde explodiria numa bola de energia tão brilhante que quem estivesse ao redor ficaria cego. Talvez por isso mesmo tivesse de começar sozinho, de cair desamparado, de saltar por conta própria para a verdadeira vida! Agora, depois de anos em eclipse, afastava-se na certeza de que não era pelas trevas que se mantinha longe. Era pelo brilho! Já ninguém o podia impedir. Tudo o que podiam fazer era deixá-lo ir e ofuscarem-se. Caiu, chegou, Mergulhou! 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Enfim Livre!


Deixa cair e desiste. Cede comigo. Dentro de minutos não há nada em teu redor que não se vá desmoronar. Porque não abandonar as lutas e ver o circo pegar fogo em algum lugar alto? Parecem-me tão pequenos agora. Acho que vou deixar que se mordam e cuspam mutuamente até restar apenas silêncio. A partir daí podemos construir o que bem entendermos. O mundo está em chamas, as pessoas não sabem senão berrar, as mulheres de meia-idade continuam frustradas com o sexo oposto e os homens continuam a achar que basta ter um pénis para se considerarem dignos do nome. Não leves a sério as bandeiras e os lemas, o histerismo das massas ou a religiosidade da ignorância. Vira costas a esses presunçosos das verdades absolutas, do politicamente correcto (como se politica e correcção tivessem alguma relação), das mentiras seculares e das verdades assassinadas. Esquece os papéis que dizem se és de facto ou não erudita. Larga essa mala pesada, cheia de coisas que tens de fazer pelos outros. Toma, ofereço-te este espelho. Agora não tens como ignorar quem és. Vês as marcas que te deixaram? As únicas marcas que devias ter são as tuas. Os preconceitos fazem-te tatuagens todos os dias. Escravizam-te as vontades e os impulsos. As ideias pré-concebidas tolhem-te os movimentos enquanto deambulas por entre aquilo que eles afirmam ser a sociedade. A civilização. Liberta-te desse tipo, pseudo-intelectual, mais da parra do que da uva, que está já a chegar ao horror de perceber que se não chegou hoje a algum lado, amanhã dificilmente chegará. Não tem potencial, não vai para lado nenhum e vais estagnar nas raízes dele. Não fiques aqui presa. Vamos, dá-me a mão. Recebi as minhas asas na noite passada e tenho força nos braços para te levar comigo. Com sorte aceitas soltar as tuas e voamos juntos. Desengana-te. Sou livre. Não há um destino ao meu lado. Apenas caminho. Vamos recriar a beleza a partir do monte de cinzas que estão a espalhar ali em baixo. Ora, nem precisa de se chamar “beleza”. Podemos mudar-lhe o nome! Eu dava-lhe o teu. Só precisamos voar acima destas nuvens e esperar que se calem lá por baixo. Ouve o que nos diz o tempo. É o único sábio honesto que conheci. Não há um único rosto ali que seja genuíno, diz-me ele. E tem razão. Estás a ver a porcelana estilhaçar nos sorrisos? Não quero esperar para ver o que está atrás. Seja o que for, o cheiro está a chegar aqui. Vamos para casa! Vens comigo? Nunca tive uma mas sinto-a perto. Antes não me deixavam lá estar porque eu não percebia que não era feita de tijolo. Estou em casa sempre que me abraças sem medos ou anseios. Sempre que me permites segurar-te entre os braços e proteger tudo aquilo que representas para mim. É que antes de ti eu estava sozinho. Quero-te como és ao final do dia. Não, nunca, jamais como aqueles papa-formigas de calças gostam de te imaginar! O tempo avisa-nos que já não nos pode dar muito mais dele mesmo. Há outros que requerem atenção. Vou-me deixar levar por ele, porque só sou forte enquanto for livre. Dá-me a mão sem hesitações. Não sou grilhão do teu passado. Sou o futuro deste incêndio. Filho do caos e do tempo. Sou teu!