terça-feira, 4 de setembro de 2012

Enfim Livre!


Deixa cair e desiste. Cede comigo. Dentro de minutos não há nada em teu redor que não se vá desmoronar. Porque não abandonar as lutas e ver o circo pegar fogo em algum lugar alto? Parecem-me tão pequenos agora. Acho que vou deixar que se mordam e cuspam mutuamente até restar apenas silêncio. A partir daí podemos construir o que bem entendermos. O mundo está em chamas, as pessoas não sabem senão berrar, as mulheres de meia-idade continuam frustradas com o sexo oposto e os homens continuam a achar que basta ter um pénis para se considerarem dignos do nome. Não leves a sério as bandeiras e os lemas, o histerismo das massas ou a religiosidade da ignorância. Vira costas a esses presunçosos das verdades absolutas, do politicamente correcto (como se politica e correcção tivessem alguma relação), das mentiras seculares e das verdades assassinadas. Esquece os papéis que dizem se és de facto ou não erudita. Larga essa mala pesada, cheia de coisas que tens de fazer pelos outros. Toma, ofereço-te este espelho. Agora não tens como ignorar quem és. Vês as marcas que te deixaram? As únicas marcas que devias ter são as tuas. Os preconceitos fazem-te tatuagens todos os dias. Escravizam-te as vontades e os impulsos. As ideias pré-concebidas tolhem-te os movimentos enquanto deambulas por entre aquilo que eles afirmam ser a sociedade. A civilização. Liberta-te desse tipo, pseudo-intelectual, mais da parra do que da uva, que está já a chegar ao horror de perceber que se não chegou hoje a algum lado, amanhã dificilmente chegará. Não tem potencial, não vai para lado nenhum e vais estagnar nas raízes dele. Não fiques aqui presa. Vamos, dá-me a mão. Recebi as minhas asas na noite passada e tenho força nos braços para te levar comigo. Com sorte aceitas soltar as tuas e voamos juntos. Desengana-te. Sou livre. Não há um destino ao meu lado. Apenas caminho. Vamos recriar a beleza a partir do monte de cinzas que estão a espalhar ali em baixo. Ora, nem precisa de se chamar “beleza”. Podemos mudar-lhe o nome! Eu dava-lhe o teu. Só precisamos voar acima destas nuvens e esperar que se calem lá por baixo. Ouve o que nos diz o tempo. É o único sábio honesto que conheci. Não há um único rosto ali que seja genuíno, diz-me ele. E tem razão. Estás a ver a porcelana estilhaçar nos sorrisos? Não quero esperar para ver o que está atrás. Seja o que for, o cheiro está a chegar aqui. Vamos para casa! Vens comigo? Nunca tive uma mas sinto-a perto. Antes não me deixavam lá estar porque eu não percebia que não era feita de tijolo. Estou em casa sempre que me abraças sem medos ou anseios. Sempre que me permites segurar-te entre os braços e proteger tudo aquilo que representas para mim. É que antes de ti eu estava sozinho. Quero-te como és ao final do dia. Não, nunca, jamais como aqueles papa-formigas de calças gostam de te imaginar! O tempo avisa-nos que já não nos pode dar muito mais dele mesmo. Há outros que requerem atenção. Vou-me deixar levar por ele, porque só sou forte enquanto for livre. Dá-me a mão sem hesitações. Não sou grilhão do teu passado. Sou o futuro deste incêndio. Filho do caos e do tempo. Sou teu! 

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