Deixa cair e desiste. Cede comigo.
Dentro de minutos não há nada em teu redor que não se vá desmoronar. Porque não
abandonar as lutas e ver o circo pegar fogo em algum lugar alto? Parecem-me tão
pequenos agora. Acho que vou deixar que se mordam e cuspam mutuamente até
restar apenas silêncio. A partir daí podemos construir o que bem entendermos. O
mundo está em chamas, as pessoas não sabem senão berrar, as mulheres de
meia-idade continuam frustradas com o sexo oposto e os homens continuam a achar
que basta ter um pénis para se considerarem dignos do nome. Não leves a sério
as bandeiras e os lemas, o histerismo das massas ou a religiosidade da
ignorância. Vira costas a esses presunçosos das verdades absolutas, do politicamente
correcto (como se politica e correcção tivessem alguma relação), das mentiras
seculares e das verdades assassinadas. Esquece os papéis que dizem se és de
facto ou não erudita. Larga essa mala pesada, cheia de coisas que tens de fazer
pelos outros. Toma, ofereço-te este espelho. Agora não tens como ignorar quem
és. Vês as marcas que te deixaram? As únicas marcas que devias ter são as tuas.
Os preconceitos fazem-te tatuagens todos os dias. Escravizam-te as vontades e
os impulsos. As ideias pré-concebidas tolhem-te os movimentos enquanto
deambulas por entre aquilo que eles afirmam ser a sociedade. A civilização.
Liberta-te desse tipo, pseudo-intelectual, mais da parra do que da uva, que
está já a chegar ao horror de perceber que se não chegou hoje a algum lado,
amanhã dificilmente chegará. Não tem potencial, não vai para lado nenhum e vais
estagnar nas raízes dele. Não fiques aqui presa. Vamos, dá-me a mão. Recebi as
minhas asas na noite passada e tenho força nos braços para te levar comigo. Com
sorte aceitas soltar as tuas e voamos juntos. Desengana-te. Sou livre. Não há
um destino ao meu lado. Apenas caminho. Vamos recriar a beleza a partir do
monte de cinzas que estão a espalhar ali em baixo. Ora, nem precisa de se
chamar “beleza”. Podemos mudar-lhe o nome! Eu dava-lhe o teu. Só precisamos
voar acima destas nuvens e esperar que se calem lá por baixo. Ouve o que nos
diz o tempo. É o único sábio honesto que conheci. Não há um único rosto ali que
seja genuíno, diz-me ele. E tem razão. Estás a ver a porcelana estilhaçar nos
sorrisos? Não quero esperar para ver o que está atrás. Seja o que for, o cheiro
está a chegar aqui. Vamos para casa! Vens comigo? Nunca tive uma mas sinto-a
perto. Antes não me deixavam lá estar porque eu não percebia que não era feita
de tijolo. Estou em casa sempre que me abraças sem medos ou anseios. Sempre que
me permites segurar-te entre os braços e proteger tudo aquilo que representas
para mim. É que antes de ti eu estava sozinho. Quero-te como és ao final do
dia. Não, nunca, jamais como aqueles papa-formigas de calças gostam de te
imaginar! O tempo avisa-nos que já não nos pode dar muito mais dele mesmo. Há
outros que requerem atenção. Vou-me deixar levar por ele, porque só sou forte
enquanto for livre. Dá-me a mão sem hesitações. Não sou grilhão do teu passado.
Sou o futuro deste incêndio. Filho do caos e do tempo. Sou teu!
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