sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Filho de Marduk

Quando entrei no quarto estavas a dormir acordada, sem perceber se te deitarias ou erguias essas pernas brancas e delgadas para ver a rua através da janela aberta diante dos teus olhos escuros, tão perdidos quanto os caminhos por onde deambulei de encontro a ti. Fitaste-me com um sorriso resignado, como se me esperasses. Não sabias se chegara para nunca mais ir embora ou se vinha apenas dizer-te que nunca deveria ter entrado. Não te trouxe vinho, ouro, incenso, mirra ou qualquer objecto. Trouxe-te um homem num mundo em que homens já não existem. Ofereci-te cicatrizes, para veres como eram. As minhas. Segurei-te a mão e levantei-te num abraço maior do que qualquer dançarina de serão pode sentir. Maior do que alguma vez julguei saber dar. É que antes eu era etéreo e agora podia ser tocado. Trataste-me por um nome que já não era o meu, porque ninguém o usava há mais de quatro mil anos. Já nem eu sabia ao certo quem era. Passou muito tempo desde que caminhava pela Babilónia, de braço dado com o meu Pai. Desde que me transformaram num ser que não servia nada a não ser ossos. Semeei o caos e a destruição durante uma época em que as pessoas não mereciam amor. Quando passaram a merecê-lo continuei em guerra com elas. Os ossos já não necessitavam de mim mas continuei a servi-los. Num mundo onde já não havia justiça, continuei a fazer valer a minha lei sem perceber que estava sozinho no motivo. Desprezava os humanos com a mesma devoção com que afago os animais. O meu Pai privou-me da sua companhia em ira e desilusão. Fiz-me carne. Perdi memórias que foram voltando em tons de nevoeiro vermelho. O meu desprezo permaneceu e este corpo foi pagando por isso. Só soube o que era a dor quando senti a possibilidade de nunca saber como era o teu queixo no meu pescoço. Feitas as contas a minha missão estava cumprida. Todas elas. Não havia agora motivos para viver no limbo de te amar e odiar tudo o que a tua espécie representa. Não é a vida que está prestes a terminar. Apenas a humanidade. De certa forma ainda bem. O mundo que conheces é uma caixa prestes a ser chutada, abanada, atirada de um lado para o outro… E todo o seu conteúdo sofrerá essa agitação. O que era deixará de ser e aquilo que não existia terá agora o seu momento. Falta pouco. A vida vai continuar sem os homens! Vim-me despedir de ti.

Surpreende-me que permaneças indiferente a tudo o que te contei. A tua única preocupação neste momento é desligar o telemóvel para que ninguém interrompa o nosso momento. Tivemos outros em que nos beijamos sem nos tocarmos. Fomos sempre interrompidos. Outros momentos houve, em que fechava os olhos e roubava as capacidades sensoriais dos homens com quem te foste envolvendo, sentindo as linhas dos teus lábios mudarem lentamente de posição em deleite. Nenhum deles te agarrou como eu estou prestes a fazer. Esta noite bebo de ti e embriagado quebro grilhões para iluminar a noite e varrer com luz o manto em que me tenho escondido por todos estes dias. Sinto o teu peito junto ao meu e sorrio com essa ansiedade. Murmuras algo que não percebo. No final é perceptível o meu nome actual, que optaste agora por dizer. Meu amor, não adianta os nomes que venhas a proferir ao longo da tua passagem, porque no fim, independentemente da nomenclatura, serei sempre eu. Estás tão sujeita a esse destino como eu ao teu corpo. Baixas ligeiramente a cabeça de forma a que a tua testa toque a minha. Não te queres afastar mas temes que te beije. Tens medo que arda. E vai arder! Deve arder. Foi isso que nunca percebeste com os outros: Se não arder não é amor. E só é amor quando dói. Teme o quanto quiseres, não irei recuar e tu também não. Perceberás que é inevitável e tudo o que podes fazer é desejar que eu nunca me vá embora. É pelo menos o que manifesta agora o teu corpo, tendo em conta a forma como me seguras o tronco com as pernas. Prendes-me com força que nem sequer tens, sem perceberes que sou eu que me permito a ficar. É que em toda esta vida terrena bem como em todas as outras, nunca quis tanto deixar cair por terra os pecados alheios, para esquecer o mundo e ser divindade num território criado apenas por nós. Beijo-te as pálpebras e transmito-te toda a segurança que necessitas sentir para finalmente te entregares. Envolvo-te como um gigante. Daqueles que mastigam leões e cascavéis a toda hora, como se de tapas se tratassem. Esta noite, neste lugar, eu tenho a força e tu tens a vida. És portanto força, sou portanto vida. Estamos completos. Não preciso de mais nada.

Morreu a fome de guerra e a criatura faminta de caos. A sede continua a dominar-me e permaneço a beber de ti sofregamente, não de forma desesperada, mas trago a trago, saboreando cada gota de ti. Como transbordas! Não me vou saciar nunca mas preciso ir em breve. Continuas a fitar-me. Olhas-me como se me estivesses a ver pela primeira vez. Estou exposto, seguro, sereno e sem escudo. Mas preciso reerguê-lo dentro de instantes e sair noite fora. Ainda não é perceptível para ti mas começo a sentir as primeiras trepidações. Em breve a caixa vai ser invertida, chocalhada, atirada contra tudo o que existir. A vida vai mudar de nome e eu preciso lá estar. Agora dorme. Amo-te. Descansa no sonho de quem foi visitado por uma divindade. Pelo menos tão divino quanto um Homem pode ser.

Sem comentários:

Enviar um comentário