A minha Rainha não precisa ser reconhecida pelo nome. Faz-se sentir a cada passo que dá na vossa presença. Todos a deviam reconhecer. Tristes daqueles que nunca a fitaram. Eu vi-a muito antes de me darem este novo nome, este novo corpo, estas novas pessoas. Não me lembro de nada antes disto, mas o meu peito guia-me na certeza de que ela, a Rainha, é senhora de todas as minhas demandas. Respeitem-na portanto, porque os meus olhos estão atentos, o meu braço firme e uma das minhas espadas sempre pronta a ficar entre vós e ela. Não a confundam com uma qualquer mulher, daquelas que encontram nos antros que frequentam para esquecer a miséria de vida que escolheram para esta passagem. A minha Rainha não precisa de falsos elogios, de mágoas desnecessárias, de palavras ocas ou olhares vazios. Ela é tudo o que mulher alguma soube ser aos meus olhos. Ela, a minha Rainha, reconheceu-me no momento em que os nossos corpos se cruzaram naquele lugar escuro. Muito antes de eu próprio me reconhecer. Talvez nunca reencontre o meu lar, porque temo que a alma não tenha tão boa memória como a mente. Sei porém, que onde ela estiver é aí o meu lugar. Na batalha dos quatro dias foi ela quem me protegeu. Sangrei e fui apanhado várias vezes entre os cavaleiros de azul. Nunca, mas nunca, arredei pé ou recuei sob pena da vergonha eterna. De algum modo a minha Rainha sabia que preferia morrer, literalmente, a recuar. As orações dela estiveram comigo todo aquele tempo. De que outro modo poderia eu investir contra todo aquele maralhal de homens ao serviço do Rei Maldito, vencer e escapar com apenas uns quantos arranhões? Não! Por maior bravura que possamos trazer no coração, os números sempre falarão por si. Teria sido despedaçado ou atirado para as masmorras ainda antes de saltar para o meio daqueles cães. De algum modo ela esteve comigo. Sei agora que vivo para lutar, mas sempre que for chamado, a luta será por ela. Quando regressei, sem voz por todos os gritos de guerra, cansado e sem força nas pernas, com o corpo pisado por quatro dias e quatro noites de luta sem tréguas, foi ela a primeira a quem dei notícias. A cada minuto daquelas horas, era a impossibilidade de a contactar a minha única tristeza. Quando a batalha atingiu o seu pico e vi o destino abater-se sobre mim, gritando em direcção aos servos do Maldito, nenhuma tristeza se abateu tão forte sobre o meu coração, como a da possibilidade de nunca mais olhar nos olhos da minha Rainha e dizer-lhe em silêncio o quanto sinto por ela. O quanto me é importante. O quanto preciso dela. O quanto estou disposto a lutar por tudo aquilo que lhe for importante. Trespassa-me os sentidos. Mira-me como nem eu mesmo algum dia ousei. O desconhecido absorve-me os sentidos, despojando-me de qualquer pensamento ou causa do momento. Sobra apenas espaço para tudo o que aquela mulher, que governa no meu peito, significa para mim. Seja a guerra ou a paz, a minha força é uma dádiva concedida apenas pela fé que devoto no que sinto por ela. Nada temo. O medo falhou-me faz tempo, na guerra da praça Coronel Pacheco, quando nos vimos desguarnecidos pela corja cobarde dos vassalos da teoria e fomos forçados a descer para a morte, crendo que as nossas vidas, tão jovens e desprovidas de experiência, fossem terminar naquele momento. Ainda aí, de algum modo, percebi que a Rainha estava perto e um dia os nossos olhos se iriam emparelhar. Assim aconteceu. Um dia, quando apenas esperava uma noite de taberna, observando gente vazia em momentos de diversão, abateu-se sobre mim a ira dos Deuses, que renegara na época em que me zanguei com eles. Ali estava a Rainha, mais bonita do que qualquer outra mulher com quem algum dia me cruzara. Firme, bela, forte! Naquele momento todos os meus ímpetos fizeram sentido. Os meus olhos serviam para observar a sua alma. O meu braço, sempre forte, para a impedir de cair ou cair junto com ela. As espadas, que com gosto aprendera a manusear, num apego inexplicável, para a defender de todo e qualquer porco sem honra que ousasse tratá-la como uma simples mulher. Os lábios para tocar na sua face em segundos de saudação. Também para lhe dizer, em boa voz, que a nenhum daqueles fracos pertencia o seu coração. Toda a minha ira, mesmo sob pena de perder a própria vida, se abateria sobre aquele que olhasse para ela com o intento que não o de a tratar com o respeito que nasceu para merecer. Tudo o que sei, camaradas e inimigos, é que ela é, acima de todos, a minha Rainha. Não sei para quantos mortais o será. Pouco me importa. Estamos ligados como o orvalho matinal está com a primavera. Esse laço, pagarei com a vida se necessário for, porque vai muito além dela. O ferro do que sinto pela minha Rainha foi forjado numa época que não pertence a nenhum de vós. Apenas a mim… e a Ela!
quarta-feira, 18 de abril de 2012
sábado, 14 de abril de 2012
Noite das Meias Coisas
Acordar com suores frios. Lembrar com saudade a cumplicidade da minhota. Aguda. Vodka no estômago. Muita, imensa, sempre insuficiente. Folhas roubadas ao moço dos óculos que põe açúcar demais nas caipirinhas. Poemas porcos, sobre a anatomia feminina, com o João e o Gonçalves. Três folhas, frente e verso, preenchidas. A rapariga morena do cabelo aos caracóis é casada. Nada a declarar. Estão onze graus mas eu não sinto nada. A Rainha deve estar a dançar. Mensagem ao primote. Deve estar farto de beber água. Eu não me farto, porque pouca bebo. A lua caiu-me em cima. Mandei-lhe tamanho pontapé que voltou para o lugar de onde veio, com as mãos no cú. Eu bato nas pessoas. Umas vezes porque merecem, outras porque mereço bater-lhes. Aquela tipa interessante deixou-me outro “like” no facebook. A rapariga casada queria conversa, mas anéis no dedo fazem-me confusão. Arranham e a minha pele é demasiado branca, fico marcado facilmente. Falando em marcar, preciso marcar o café com o Ricardo e contar-lhe as boas notícias. O poeta escreveu outra porcaria. Mete-me nojo. Acha-se único mas coça a barba como os demais. Eu não coço a barba. Coço os nervos de quem posso. O meu escritor favorito é o meu irmão. A Adriana é a minha cunhada favorita. Mesmo quando tiver outras, vai ser sempre a minha favorita. A cadela dos vizinhos de cima está sempre a ladrar quando chego. Faço-lhe festas. O pelo está a cair. Dizem-me que é normal mas eu fico preocupado. Aquela tipa de Castelo Branco tornou a mandar mensagem. Não percebe que preferia trilhar os testículos na porta do wc, a tirar-lhe sequer a blusa. É muito bonita… Mas é tão feia. O lacrau empina o cú a dançar e a parte superior do maxilar é desproporcional comparativamente ao queixo. Coitada da rapariga, tão graciosa e tão condicionada por aquele merdas seboso. A Rainha é perfeita! A Cristiana liga-me sempre em viagem e eu gosto, diz-me para ralhar com ela e eu ralho. É minha amiga porque me atura. Antes era mediadora, agora é uma constante. A Roma tem uma cabeça maior que a minha, e eu apaixonei-me por ela. Tem um pelo fantástico e é uma autêntica senhora. A dona dela é linda. Tenho saudades da Paulinha, rimo-nos sempre muito. É uma espécie de Mãe. É maternal e eu deixo. Falando nisso preciso falar com a dona Ana, a Mãe adoptiva. Ela vai ficar feliz por mim e eu vou ficar feliz porque ela está feliz. A minha Mãe também é para mim como uma Mãe. Preciso muito falar com a minha Avó, porque a amo e quero dizer-lho. Mas ela morreu. Acho que não me ouve. A Isabel disse-me para ir ao Be ter com ela, mas eu vim para casa escrever. A Sara disse-me que dependendo da graduação consigo uns óculos baratos na loja dela. Quero um fino seu filho da puta. O vinho do teu bar é uma merda! Se o fino vier morto, espeto-te com o copo nos cornos. Não gosto de ti! A Adelina mandou-me um vídeo mas o meu primo diz que a música não presta. Só que eu gosto do vídeo porque tem cenas de luta com adagas. Gosto de lâminas. As minhas espadas são lindas. O António ligou hoje a um amigo que as vai amolar. A Diana está triste e tão cedo não fica bem. Eu estou do lado dela. Quero amendoins torrados seu boi! Se não forem estaladiços corto-te o cabelo ao estalo. A Dominique tem medo do arrumador e o arrumador tem medo de mim. O João despachou comigo uma garrafa de JB. Eu é que sou o lobo mau. Não o disse antes senão ninguém me deixava morder. Só não como a avózinha porque cheira a naftalina. Gosto do cheiro a terra molhada e gosto da Rainha. A maquilhadora diz que é artista. Mais artista do que ela é o meu pé direito. O centro de trabalho é uma casa muito antiga, um tanto podre, mas é tão bonito e o piu-piu toca músicas do Adriano. Perdido encontrei-me e em breve vou pisar um novo chão. Hoje bebo e escrevo. Estou convosco porque vos trago nas vísceras. Gostem ou não, hei-de abraçar-vos ou torcer-vos o pescoço, conforme o apetite. Por agora afogo-vos no copo que o cromo acabou de trazer. Libertinagem sempre!
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