quarta-feira, 18 de abril de 2012

A Rainha

A minha Rainha não precisa ser reconhecida pelo nome. Faz-se sentir a cada passo que dá na vossa presença. Todos a deviam reconhecer. Tristes daqueles que nunca a fitaram. Eu vi-a muito antes de me darem este novo nome, este novo corpo, estas novas pessoas. Não me lembro de nada antes disto, mas o meu peito guia-me na certeza de que ela, a Rainha, é senhora de todas as minhas demandas. Respeitem-na portanto, porque os meus olhos estão atentos, o meu braço firme e uma das minhas espadas sempre pronta a ficar entre vós e ela. Não a confundam com uma qualquer mulher, daquelas que encontram nos antros que frequentam para esquecer a miséria de vida que escolheram para esta passagem. A minha Rainha não precisa de falsos elogios, de mágoas desnecessárias, de palavras ocas ou olhares vazios. Ela é tudo o que mulher alguma soube ser aos meus olhos. Ela, a minha Rainha, reconheceu-me no momento em que os nossos corpos se cruzaram naquele lugar escuro. Muito antes de eu próprio me reconhecer. Talvez nunca reencontre o meu lar, porque temo que a alma não tenha tão boa memória como a mente. Sei porém, que onde ela estiver é aí o meu lugar. Na batalha dos quatro dias foi ela quem me protegeu. Sangrei e fui apanhado várias vezes entre os cavaleiros de azul. Nunca, mas nunca, arredei pé ou recuei sob pena da vergonha eterna. De algum modo a minha Rainha sabia que preferia morrer, literalmente, a recuar. As orações dela estiveram comigo todo aquele tempo. De que outro modo poderia eu investir contra todo aquele maralhal de homens ao serviço do Rei Maldito, vencer e escapar com apenas uns quantos arranhões? Não! Por maior bravura que possamos trazer no coração, os números sempre falarão por si. Teria sido despedaçado ou atirado para as masmorras ainda antes de saltar para o meio daqueles cães. De algum modo ela esteve comigo. Sei agora que vivo para lutar, mas sempre que for chamado, a luta será por ela. Quando regressei, sem voz por todos os gritos de guerra, cansado e sem força nas pernas, com o corpo pisado por quatro dias e quatro noites de luta sem tréguas, foi ela a primeira a quem dei notícias. A cada minuto daquelas horas, era a impossibilidade de a contactar a minha única tristeza. Quando a batalha atingiu o seu pico e vi o destino abater-se sobre mim, gritando em direcção aos servos do Maldito, nenhuma tristeza se abateu tão forte sobre o meu coração, como a da possibilidade de nunca mais olhar nos olhos da minha Rainha e dizer-lhe em silêncio o quanto sinto por ela. O quanto me é importante. O quanto preciso dela. O quanto estou disposto a lutar por tudo aquilo que lhe for importante. Trespassa-me os sentidos. Mira-me como nem eu mesmo algum dia ousei. O desconhecido absorve-me os sentidos, despojando-me de qualquer pensamento ou causa do momento. Sobra apenas espaço para tudo o que aquela mulher, que governa no meu peito, significa para mim. Seja a guerra ou a paz, a minha força é uma dádiva concedida apenas pela fé que devoto no que sinto por ela. Nada temo. O medo falhou-me faz tempo, na guerra da praça Coronel Pacheco, quando nos vimos desguarnecidos pela corja cobarde dos vassalos da teoria e fomos forçados a descer para a morte, crendo que as nossas vidas, tão jovens e desprovidas de experiência, fossem terminar naquele momento. Ainda aí, de algum modo, percebi que a Rainha estava perto e um dia os nossos olhos se iriam emparelhar. Assim aconteceu. Um dia, quando apenas esperava uma noite de taberna, observando gente vazia em momentos de diversão, abateu-se sobre mim a ira dos Deuses, que renegara na época em que me zanguei com eles. Ali estava a Rainha, mais bonita do que qualquer outra mulher com quem algum dia me cruzara. Firme, bela, forte! Naquele momento todos os meus ímpetos fizeram sentido. Os meus olhos serviam para observar a sua alma. O meu braço, sempre forte, para a impedir de cair ou cair junto com ela. As espadas, que com gosto aprendera a manusear, num apego inexplicável, para a defender de todo e qualquer porco sem honra que ousasse tratá-la como uma simples mulher. Os lábios para tocar na sua face em segundos de saudação. Também para lhe dizer, em boa voz, que a nenhum daqueles fracos pertencia o seu coração. Toda a minha ira, mesmo sob pena de perder a própria vida, se abateria sobre aquele que olhasse  para ela com o intento que não o de a tratar com o respeito que nasceu para merecer. Tudo o que sei, camaradas e inimigos, é que ela é, acima de todos, a minha Rainha. Não sei para quantos mortais o será. Pouco me importa. Estamos ligados como o orvalho matinal está com a primavera. Esse laço, pagarei com a vida se necessário for, porque vai muito além dela. O ferro do que sinto pela minha Rainha foi forjado numa época que não pertence a nenhum de vós. Apenas a mim… e a Ela! 

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