Assim que a gaivota parou de
comer o pombo, caso raro que nem achava ser possível, o gigante retirou-se do jardim e
recordou que atravessar a ponte não iria ser tão divertido quanto saltar dela.
O único impedimento, claro, era a morte. A pressão do ar nos pulmões ou o
choque contra a água gelada do rio certamente poriam cobro a toda e qualquer
possibilidade de divertimento futuro. Ora lá estaria uma catástrofe
inaceitável. Sim, ele tinha consciência da sua importância. Sabia muito bem o
que estava a fazer e onde queria ir. Só não sentia ímpeto algum de o partilhar
com quem quer que fosse. Porque raio o faria? Para quê partilhar o que só para
ele representava algo? Para quê juntar-se a eles na mortalidade, quando era
precisamente a imortalidade que almejava? Quase a meio da ponte percebia que
estava a crescer. A passo largo, diga-se. Ultrapassara já os dois metros de
altura. E os anões, essas criaturas que achavam possuírem uma estatura
aceitável, não percebiam que essa impressão lhes era dada apenas porque… Só se
rodeavam uns dos outros. Como poderiam eles experienciar o fogo que se lhe
soltava dos olhos, quando mal lhe chegavam aos joelhos? Eles cantavam,
dançavam, sorriam uns com os outros, seduziam-se mutuamente, punham a trabalhar
os órgãos daninhos e diziam ter orgasmos. Diziam-se cosmopolitas e estudiosos
das mais variadas ciências. Afirmavam-se artistas batendo gravemente no peito e
sabiam na ponta da língua os nomes e efemérides dos mais variados “artistas” do
nanismo. Dia-após-dia, os anões perdiam outra centelha de vida, enquanto a
mortalidade lhes estimulava o recto, primeiro com o dedo, depois com dois, até
ao suspiro final com o braço inteiro e a descida ao abismo do esquecimento. Na
noite seguinte, ainda doloridos, era vê-los bailar, comer, tomar vinho e
papaguear mil e uma frases feitas, escritas centenas de anos antes, por quem…?
Mais anões, claro está! Se em terra de cegos quem tiver um olho é rei, naquela
época, quem tinha uma visão do mundo acima de um metro de altura, era estranho.
Uma bizarra criatura vagando pela cidade, mijando-lhes com o olhar,
desafiando-os para os mais variados confrontos e desdenhando qualquer mostra de
futilidade daqueles homens e mulheres “cosmopolitas”. Os cosmoputos e as
cosmoputas. Os anões.
– Olha o meu desenho! – Pedia-lhe um anão aos saltos.
– Ofereço-te esta
fotografia. – Dizia uma anã de máquina em punho.
– Não queres saber dançar? –
Indagava outro enquanto coçava a barba.
– Olha que bem que eu toco.
- Gritava esganiçado um ainda mais pequeno.
- Não! Não quero olhar para
o teu desenho. Não quero a fotografia. O meu corpo não está aqui para dançar. E
tu, pequenote, podes colocar o instrumento no cú e ver se as cordas ainda
vibram. – Respondia-lhes o nosso “bizarro” amigo.
Foi nestes pensamentos desrespeitosos que alcançou a outra margem, caminhando pausadamente por entre turistas, anões e até alguns eruditos membros deste e daquele núcleo cultural (ou palheiro) na cidade. Ah a cidade… Aquela merecia melhor que uma cambada de meia gente a sugar-lhe a misticidade e apoderar-se dela, dizendo que era arte e que foi da sua autoria. Ainda assim era orgânica e como qualquer organismo… Tem os seus parasitas. Fiquem portanto sabendo, que se temos cidade constipada nos dias que correm, parte da causa está a descoberto. E o gigante? Não é gigante nenhum. Perto de um anão, qualquer homem livre é horrorosamente grande. Quando fumava, formava-se nevoeiro onde estivesse um deles. Quando vertia a bebida, afogavam-se. Se sacudisse as mãos ao vento, era vê-los esbaforidos sem saber ao certo onde se podiam esconder. Temiam-no. Temiam-no com o mesmo empenho com que ele os escarnecia! Que podiam fazer? Se lhe falassem, argumentava. Se lhe tentassem saltar para as canelas, sacudia com os pequenos a remates de futebolista. Não lhes restava nada senão cantar e dançar, rodearem-se uns dos outros a rezar ladainhas de anão pela salvação na hora em que o gigante lhes entraria pelo espaço dentro, com sede de cerveja, de escárnio e de verdade!
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