Que
mal viria ao mundo se esta pedra do jardim, tão pesada que dois homens mal a
conseguiam erguer, me caísse em cima e osso a osso me enviasse para o túmulo
frio dos meus antepassados? Pois que nenhum. Nenhum dano seria infligido ao
mundo. Por certo meia dúzia de familiares me choraria e uma dúzia de amigos lamentaria
o fim abrupto. Só que a noite continuaria a cair e o sol a enviá-la de volta,
todos os dias, sem qualquer embaraço. Escritores nasceriam e dariam um
contributo de beleza grande aos locais, pessoas e “bolhas” contra os quais vou
vociferando. Os amigos seguiriam com as suas vidas e eu não passaria de mais
uma nota de rodapé na sua existência tão rica. Os familiares conservariam uma
ou outra fotografia minha, do falecido, sorrindo contrariado e certamente que
me iriam recordar nesta ou naquela reunião, lamentando a perda do que poderia
ser mas nunca foi. E por nunca ter sido, nunca poderia cumprir, porque nunca
teria completado o propósito que julgavam ser o meu. O mais certo é que nem me
cremassem como tantas vezes afirmei desejar. Em vez de me reduzirem a pó no
espaço de meia hora, iriam enviar-me o corpo para os sete palmos de terra
húmidos, escuros e sujos, onde jaziam e apodreciam os restos de pessoas que me
criaram e que muito menos do que eu mereciam estar ali. Aquela pedra que me
esmagaria permaneceria no jardim. E por já eu não ser ameaça de espelho para
esta ou aquela pessoa que apodrecia em vida mais do que após a morte,
certamente que seria lamentado. Em última análise, e fosse o cinismo suficiente,
quem sabe não fosse louvado? A gargalhada que eu não soltaria ao ver as mãos
cujos dedos outrora me apontaram, estarem agora de punho cerrado a bater no
peito, bradando ao mundo o quanto lamentavam não se terem despedido. Não
necessito, mas obrigado. Olho para a pedra e a pedra olha para mim.
Questiono-a. – Já mataste alguém antes de mim? – E ela calada. Não me responde
de imediato. Fita-me sem emoção, como pedra que é. Ergo o queixo para que
perceba que nem só ela é feita de granito. “Rijo como cornos”, disse-me alguém
um dia. Acho que já vi chifres suficientes nas minhas incursões nocturnas (e de
facto são resistentes), para perceber que era um elogio. Ergo-me do degrau onde
estava acomodado para ir buscar um cigarro. – Espera. – Responde finalmente o
calhau. – Nunca matei ninguém antes de ti. Não sei se matarei depois. Mas
responde-me sinceramente: Não preferes que seja eu a esmagar-te, em vez de um
qualquer humano?
Acendi
o meu cigarro, sorri-lhe e soltei a primeira baforada.
-
Nem humanos, nem calhaus… Não vem nenhum mal ao mundo se me tirares a vida
agora. Mas também não vem nenhum se eu te mandar à merda e continuar por cá.
Sem comentários:
Enviar um comentário