Promoções
de boicote. As pessoas parecem cães famintos. Hoje desisto de ti, geração. Não
das minhas crenças. Apenas de ti. Certo dia, no mês de Maio, num ano que já não
o é, jurei defender-te. Jurei proteger-te. Certo dia, não muito tempo atrás,
afirmei que dava a vida por ti. Não menti. É que de certa forma estás a
matar-me. Perco a paciência nas escadas rolantes do metro. A velha, o raio da
velha, não me sai da frente. Está indiferente a quem tem pressa de entrar no
transporte para o trabalho que lhes magoa as pernas, que deixa os pés em ferida e suga toda a
energia, todo o tempo de qualidade. Morre o ânimo para receberem uns trocados,
atirados por um qualquer gerente, tão ou mais burgesso que os
governantes/empresários a quem lambe os colhões para que ele próprio continue a
auferir um bom ordenado. O salário da exploração. Porque há dois. Somente dois
tipos. O rendimento da exploração e o rendimento do explorado. E tu geração,
estás longe de receber o primeiro. Põe-te no teu lugar. Enquanto isso ele bate
no peito, o gerente, insultando quem se levanta três horas antes que o chefe,
para fazer o que ele não faz e comer as migalhas que deixar cair da mesa. Mas
não fiquem tristes. Afinal de contas, têm promoções. Podem não auferir mais por
isso, mas acumulam funções, precariedade e menos um ou dois insultos do homem
da gravata. Acabo por ultrapassar a velha para seguir o meu caminho. Não leves
a mal velhota. Não é pessoal. É só o mundo que construíste para mim e que
insistes em criticar, como se não fosses tu quem cuspiu, cagou e mijou este
pântano de humilhação e mediocridade em que todos chafurdamos. E fico assim,
orgulhoso na minha ira de rebelde profissional. Eis que numa tarde tranquila,
ligo o rádio e escuto a notícia da morte de um gajo qualquer, que diziam ser
talentoso e por isso… famoso. Sim porque para o ser é preciso ter talento.
Observem por exemplo os programas da manhã. É aí que me lembro novamente de ti,
geração. Que não és famosa porque não tens os talentos da mediocridade, que não
serves para entretenimento. Mas tens outros. O de lamber as próprias feridas e
estar aqui todas as manhãs, para mais um dia de dor. E ainda ajudas a mitigar
as maleitas do vizinho, pondo de lado as tuas. Vejo gente de brincadeira, que
se acha gente a sério. Gente “cosmopolita” gritando “descanse em paz” e
lamentando a morte de um tipo qualquer, um único rapazola quem nem conhecem.
Mas fica bem dizer-lhe o nome de semblante carregado. Qualquer erudito precisa
lamentar a morte do homem. Caso contrário não o é. Convém também agir como se
lhe conhecessem o cheiro, como se todos lhe dormissem no leito. Fica bem dizer
assim, agir assim, porque são cosmopolitas. Só que tu, geração, morres todos os
dias. Por fora e por dentro. Tens meses em que não comes para tomar os
medicamentos e outros em que os comprimidos não chegam porque tens de matar a
fome. Como posso então desistir de ti? Se o faço só me sobram os cosmopolitas e
com esses o único contacto que anseio ter é o do autoclismo. Não posso, geração
minha. Sou tão teu como a dor que levas calada. Não te viro as costas geração
que tudo mata, menos a própria fome.
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