terça-feira, 19 de junho de 2012

Pedras


Que mal viria ao mundo se esta pedra do jardim, tão pesada que dois homens mal a conseguiam erguer, me caísse em cima e osso a osso me enviasse para o túmulo frio dos meus antepassados? Pois que nenhum. Nenhum dano seria infligido ao mundo. Por certo meia dúzia de familiares me choraria e uma dúzia de amigos lamentaria o fim abrupto. Só que a noite continuaria a cair e o sol a enviá-la de volta, todos os dias, sem qualquer embaraço. Escritores nasceriam e dariam um contributo de beleza grande aos locais, pessoas e “bolhas” contra os quais vou vociferando. Os amigos seguiriam com as suas vidas e eu não passaria de mais uma nota de rodapé na sua existência tão rica. Os familiares conservariam uma ou outra fotografia minha, do falecido, sorrindo contrariado e certamente que me iriam recordar nesta ou naquela reunião, lamentando a perda do que poderia ser mas nunca foi. E por nunca ter sido, nunca poderia cumprir, porque nunca teria completado o propósito que julgavam ser o meu. O mais certo é que nem me cremassem como tantas vezes afirmei desejar. Em vez de me reduzirem a pó no espaço de meia hora, iriam enviar-me o corpo para os sete palmos de terra húmidos, escuros e sujos, onde jaziam e apodreciam os restos de pessoas que me criaram e que muito menos do que eu mereciam estar ali. Aquela pedra que me esmagaria permaneceria no jardim. E por já eu não ser ameaça de espelho para esta ou aquela pessoa que apodrecia em vida mais do que após a morte, certamente que seria lamentado. Em última análise, e fosse o cinismo suficiente, quem sabe não fosse louvado? A gargalhada que eu não soltaria ao ver as mãos cujos dedos outrora me apontaram, estarem agora de punho cerrado a bater no peito, bradando ao mundo o quanto lamentavam não se terem despedido. Não necessito, mas obrigado. Olho para a pedra e a pedra olha para mim. Questiono-a. – Já mataste alguém antes de mim? – E ela calada. Não me responde de imediato. Fita-me sem emoção, como pedra que é. Ergo o queixo para que perceba que nem só ela é feita de granito. “Rijo como cornos”, disse-me alguém um dia. Acho que já vi chifres suficientes nas minhas incursões nocturnas (e de facto são resistentes), para perceber que era um elogio. Ergo-me do degrau onde estava acomodado para ir buscar um cigarro. – Espera. – Responde finalmente o calhau. – Nunca matei ninguém antes de ti. Não sei se matarei depois. Mas responde-me sinceramente: Não preferes que seja eu a esmagar-te, em vez de um qualquer humano? 
Acendi o meu cigarro, sorri-lhe e soltei a primeira baforada.
- Nem humanos, nem calhaus… Não vem nenhum mal ao mundo se me tirares a vida agora. Mas também não vem nenhum se eu te mandar à merda e continuar por cá. 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Anões (ou a Gaivota que engoliu o Pombo)


Assim que a gaivota parou de comer o pombo, caso raro que nem achava ser possível, o gigante retirou-se do jardim e recordou que atravessar a ponte não iria ser tão divertido quanto saltar dela. O único impedimento, claro, era a morte. A pressão do ar nos pulmões ou o choque contra a água gelada do rio certamente poriam cobro a toda e qualquer possibilidade de divertimento futuro. Ora lá estaria uma catástrofe inaceitável. Sim, ele tinha consciência da sua importância. Sabia muito bem o que estava a fazer e onde queria ir. Só não sentia ímpeto algum de o partilhar com quem quer que fosse. Porque raio o faria? Para quê partilhar o que só para ele representava algo? Para quê juntar-se a eles na mortalidade, quando era precisamente a imortalidade que almejava? Quase a meio da ponte percebia que estava a crescer. A passo largo, diga-se. Ultrapassara já os dois metros de altura. E os anões, essas criaturas que achavam possuírem uma estatura aceitável, não percebiam que essa impressão lhes era dada apenas porque… Só se rodeavam uns dos outros. Como poderiam eles experienciar o fogo que se lhe soltava dos olhos, quando mal lhe chegavam aos joelhos? Eles cantavam, dançavam, sorriam uns com os outros, seduziam-se mutuamente, punham a trabalhar os órgãos daninhos e diziam ter orgasmos. Diziam-se cosmopolitas e estudiosos das mais variadas ciências. Afirmavam-se artistas batendo gravemente no peito e sabiam na ponta da língua os nomes e efemérides dos mais variados “artistas” do nanismo. Dia-após-dia, os anões perdiam outra centelha de vida, enquanto a mortalidade lhes estimulava o recto, primeiro com o dedo, depois com dois, até ao suspiro final com o braço inteiro e a descida ao abismo do esquecimento. Na noite seguinte, ainda doloridos, era vê-los bailar, comer, tomar vinho e papaguear mil e uma frases feitas, escritas centenas de anos antes, por quem…? Mais anões, claro está! Se em terra de cegos quem tiver um olho é rei, naquela época, quem tinha uma visão do mundo acima de um metro de altura, era estranho. Uma bizarra criatura vagando pela cidade, mijando-lhes com o olhar, desafiando-os para os mais variados confrontos e desdenhando qualquer mostra de futilidade daqueles homens e mulheres “cosmopolitas”. Os cosmoputos e as cosmoputas. Os anões.


– Olha o meu desenho! – Pedia-lhe um anão aos saltos.
– Ofereço-te esta fotografia. – Dizia uma anã de máquina em punho.
– Não queres saber dançar? – Indagava outro enquanto coçava a barba.
– Olha que bem que eu toco. - Gritava esganiçado um ainda mais pequeno.
- Não! Não quero olhar para o teu desenho. Não quero a fotografia. O meu corpo não está aqui para dançar. E tu, pequenote, podes colocar o instrumento no cú e ver se as cordas ainda vibram. – Respondia-lhes o nosso “bizarro” amigo.


Foi nestes pensamentos desrespeitosos que alcançou a outra margem, caminhando pausadamente por entre turistas, anões e até alguns eruditos membros deste e daquele núcleo cultural (ou palheiro) na cidade. Ah a cidade… Aquela merecia melhor que uma cambada de meia gente a sugar-lhe a misticidade e apoderar-se dela, dizendo que era arte e que foi da sua autoria. Ainda assim era orgânica e como qualquer organismo… Tem os seus parasitas. Fiquem portanto sabendo, que se temos cidade constipada nos dias que correm, parte da causa está a descoberto. E o gigante? Não é gigante nenhum. Perto de um anão, qualquer homem livre é horrorosamente grande. Quando fumava, formava-se nevoeiro onde estivesse um deles. Quando vertia a bebida, afogavam-se. Se sacudisse as mãos ao vento, era vê-los esbaforidos sem saber ao certo onde se podiam esconder. Temiam-no. Temiam-no com o mesmo empenho com que ele os escarnecia! Que podiam fazer? Se lhe falassem, argumentava. Se lhe tentassem saltar para as canelas, sacudia com os pequenos a remates de futebolista. Não lhes restava nada senão cantar e dançar, rodearem-se uns dos outros a rezar ladainhas de anão pela salvação na hora em que o gigante lhes entraria pelo espaço dentro, com sede de cerveja, de escárnio e de verdade!