domingo, 12 de fevereiro de 2012

Nunca mais!

Deixa-me partir. Quero regressar ao lugar onde nunca estive, mas a que sempre pertenci. Aquela gruta. A gruta isolada na montanha deserta onde nunca nasci e que ainda assim é meu berço. Lá ficarei, isolado de todos, ou apenas isolado de mim. O meu cabelo e barba crescerão até o meu rosto ser coberto. Dessa forma nunca mais serei visto pelo mundo a que também tu pertences. Deixa-me. Irei juntar seixos, dar-lhes-ei nomes e é com eles que terei as minhas conversas. Se me magoarem tanto com o seu silêncio como tu com essas palavras, atirá-los-ei fora e irei coleccionar outros. Escreverei nas paredes o livro que jamais será lido, tendo como utensílio os ossos dos animais que ousarem invadir a minha caverna. Com os meus dentes serão dilacerados. Todos! Sem excepção. Ursos, alces, bodes, burros, cavalos ou até bois. Sucumbirão com a força dos meus maxilares e enquanto o seu sangue se mistura na minha saliva, escorrendo pela minha barba, soltarei um grunhido misto de gargalhada e gemido de dor. Tornar-me-ei louco. Correrei sujo de lama pelos bosques com os farrapos no lombo que outrora estavam limpos e compostos, mas que, qual retrato do meu olhar, estão agora encardidos, irreconhecíveis e rasgados. Farrapos. Não mais serei um homem com trejeitos de besta. Sou agora uma besta com semelhanças de homem. Evolução ou regressão, tanto me faz. A chuva e os ruídos da noite serão a única música que irei escutar nos meus passeios nocturnos. Grito enquanto corro. Salto enquanto grito. Desafio a natureza. A mesma que me rodeia, a mesma que te criou. Irei pontapear os troncos das árvores e ficarei satisfeito apenas quando ouvir estalar os ossos dos meus pés. Rastejarei. Morderei a terra no intuito de a magoar. Sim, ao menos naquele momento, naquela pequena porção de terreno, estarei a perturbar o planeta e poderei regozijar-me imaginando o seu lamento de dor, ou quanto muito de incómodo, pois serei como o mosquito que não causa a dor com a mordida, mas cuja comichão e irritação na pele deixa bem latentes. Quando os meus dentes se quebrarem e a minha língua suja pela terra estiver cortada, é para as minhas mãos que a minha atenção irei voltar. Com elas escavarei um buraco na encosta desta montanha. Um buraco fundo o suficiente para que nele caiba o meu corpo, o meu ego e a minha ira. Ambos maiores que eu. Por fim, após horas empurrado pelo vento e aliviado pela chuva, cairei na minha própria cova. As minhas unhas desapareceram, cada ponta dos meus dedos é uma massa de carne e sangue derramado sobre tudo aquilo que tocam. Falta pouco. No derradeiro acto de descanso sei que irei visualizar a tua face. Conseguirei ler nos teus lábios frases que me dizem o quanto não valho, o quanto não sou, o quanto não faço... Em ira, levarei os dedos aos olhos, e assolado pela maior dor física que possa imaginar, arrancá-los-ei! Sangue por todo o meu corpo. Pouco falta para morder a língua. Mas não. Não o posso fazer. Os meus dentes estão algures crivados na terra, como oferta final em troca do que nunca me foi auferido. Seja. Usarei esta língua, esta boca, para proferir as últimas palavras antes do fim:  Nunca mais!

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